Cinco Tipos de Medo é um filme de feitos únicos. Primeira experiência de Xamã e Bella Campos com longas-metragens, foi rodado no calor de Cuiabá, no Mato Grosso, saiu do Festival de Gramado de 2025 com 4 Kikitos e agora chega aos cinemas do Brasil com uma proposta firme: reconhecer a violência que está dentro de cada personagem e convidar o público a compreendê-la como uma reação humana.
O filme do diretor Bruno Bini adota uma estrutura de mosaico para contar uma história cruzada por múltiplas linhas narrativas. No centro desta teia está Marlene (Campos), uma enfermeira presa em um relacionamento abusivo com o traficante Sapinho (Xamã). Um dia, ela conhece e se apaixona pelo jovem músico Murilo (João Vitor Silva). Suas histórias se entrelaçam com as de Luciana (Barbara Colen), uma policial movida por um desejo de vingança, e Ivan (Rui Ricardo Diaz), um advogado com segundas intenções.
Bini admite que uma das inspirações para a estrutura narrativa do filme foi o longa mexicano Amores Brutos (2000), de Alejandro González Iñárritu, que entrelaça múltiplas histórias da mesma maneira. No entanto, o cuiabano reforça que não quis apenas replicar um formato por simples rigor estético.
"A escolha dessa não-linearidade foi deliberada, buscando, por ser uma história com tanta coisa acontecendo, aproveitar essa oportunidade para, de alguma maneira, conseguir duas coisas", explica o cineasta em entrevista ao Estadão. "Envolver um pouco mais o espectador e conversar com a característica de cada um dos personagens, que têm intenções ocultas e estão sempre escondendo alguma coisa."
De fato, o filme oculta em suas camadas a profundidade e a complexidade de cada um dos personagens, elementos que vão sendo revelados aos poucos à medida que a conexão entre cada um dos cinco protagonistas, atravessada pela violência, vai ficando mais evidente.
"A violência que aparece no filme conversa com o que a gente tem no nosso dia a dia, sem espetacularizar. Eu vejo Cinco Tipos de Medo como um filme que reconhece que a violência está dentro de todo mundo", opina o cineasta. "Todos os personagens têm o seu momento no qual se entregam, o que acaba sendo uma reação muito humana. Acho que carregamos isso dentro de nós."
No quintal de casa
Bella Campos estreou nas telas de todo o Brasil com 24 anos, quando interpretou Muda no remake de Pantanal. Natural de Cuiabá, mudou-se para o Rio de Janeiro quando passou para testes para uma temporada de Malhação que nunca veio, e pouco tempo depois surgiu na pele da personagem de poucas palavras criada por Benedito Ruy Barbosa. Conquistou o público mesmo, no entanto, com sua versão debochada de Maria de Fátima em Vale Tudo.
Mesmo com o sucesso em tramas tão populares na TV, Bella não finge costume e não esconde a felicidade de estrear nas telonas - e, ainda por cima, com uma produção de seu próprio estado.
"Eu percebi que são linguagens diferentes, mas eu adorei a experiência. Não vou me cansar de dizer que adorei especialmente poder estar gravando na minha terra, perto dos meus familiares, perto da minha avó, perto do meu pai", confessa a atriz de 28 anos. "Poder falar de uma personagem que está dentro de mim, que tem muito a ver com o ambiente no qual eu fui criada e que tem o meu sotaque, por si já é especial", vibra.
Sua Marlene, moça simples que vive em uma comunidade cuja paz depende do tráfico, é o coração de Cinco Tipos de Medo. Apesar da trajetória e da vida salpicada por formas de violência, ela se firma como o fio condutor de uma narrativa de esperança. Isso ocorre diante de um contexto social que ecoa fortemente o presente, marcado por denúncias cada vez mais comuns de violência contra a mulher.
"A gente sabe que ser mulher nessa sociedade é muito difícil, e não tem caminho fácil para fazer isso", começa Bella, refletindo sobre a trajetória de sua personagem. "Se você encara, você vai sofrer as consequências de ter encarado; se você se submete [à violência], você vai sofrer as consequências de ter se submetido. A Marlene é uma personagem que está conectada com o desejo interno dela de sair daquela situação. Ela enfrenta as dores e as consequências."
Para a atriz, existe um impacto social no desfecho da personagem, que ela defende como uma busca por autonomia. "Não tem maneira fácil de existir, infelizmente, e precisamos bancar qual é a decisão menos dolorida. Fico feliz por ela ser uma personagem que mostra uma possibilidade, que existe saída. E espero que ela consiga trazer essa mensagem positiva para as mulheres que forem assistir também", torce.
Da música ao sangue
João Vitor Silva, que recentemente ganhou destaque nacional no elenco de O Agente Secreto, diz que o seu maior desafio com Murilo foi fazer com que a evolução do personagem na história soasse natural.
Seu personagem, um músico discreto que vive com a mãe e não tem embates, vê a realidade se transformar justamente quando cruza pelo caminho de Marlene e, consequentemente, de Sapinho. Sem querer, vê-se forçado a entrar de cabeça em um universo de criminalidade para tentar salvar a própria pele.
"Isso foi o que me brilhou os olhos assim que eu li o roteiro", confessa o ator. "O Murilo é um violinista; a arma dele, a princípio, é o violino. Então, pensar nesse caminho e pensar em como eu iria trazer isso para a tela com verdade foi o meu maior desafio. A base disso é pensar que as pessoas, quando estão com medo, fazem coisas que não achavam que iriam fazer. Você consegue acreditar que o Murilo faz essas coisas por amor e vai fundo nessa história", argumenta.
Fama de malvadão
Desde que estreou no mundo da atuação, em uma participação na novela Amor de Mãe, Xamã também já esteve em Renascer, Justiça, Os Donos do Jogo e, atualmente, está em Três Graças. Em todos os projetos, alguns para a TV e outros para o streaming, há um elemento em comum: o rapper está constantemente interpretando vilões.
A situação não muda com Cinco Tipos de Medo, projeto em que ele interpreta um traficante que manda e desmanda em um bairro da periferia de Cuiabá. A segurança da região, inclusive, depende dele. Sem sua presença, facções inimigas invadem o local e não dão paz aos moradores.
Xamã está ciente da recorrência, mas vê em Sapinho a oportunidade de mostrar que há uma complexidade maior nas possibilidades que a vida oferece para jovens periféricos.
"A violência vira [uma saída], principalmente nesse local, na favela, que é uma potência criativa tão incrível. Muitas crianças acabam olhando para o lado e vendo o crime. Não sabem que aquilo é errado e acaba sendo cíclico, geração após geração", analisa.
Para ele, o contraste de vidas revelado no filme abre uma porta para que o público enxergue que esse ciclo não precisa ser sempre a única saída.
"A arte me salvou e salvou várias pessoas desse panorama de violência, e acho que a internet também ajudou alguns artistas independentes a terem mais possibilidades. Não sei qual seria a minha realidade se eu não tivesse sido politizado pelo rap, se não tivesse essa oportunidade de trabalhar com o cinema. E acho que, se o Sapinho não tivesse sido entregue a esse panorama de violência, também poderia ser um Murilo."
Trajetória premiada
Agora que chega ao circuito com quatro Kikitos na bolsa, o filme desperta a curiosidade do elenco e do diretor, todos ansiosos para ver a reação do público ao desenrolar da trama.
"A gente passou o filme já em alguns festivais, então eu estava curioso para entender como ele funcionaria fora do País", diz Bini, sobre a exibição do longa em festivais fora do Brasil. "Mas estou com muita vontade de descobrir como ele vai funcionar dessa maneira mais aberta para o público todo aqui dentro do Brasil, que é para quem a gente realmente fez."
Já para Xamã, que levou o prêmio de Melhor Ator, há um peso da responsabilidade de fazer honra à escolha do júri.
"O Kikito quase caiu da minha mão, eu não sabia que era pesado. Passei uma vergonha", brinca o ator. "Você se sente meio que fazendo um gol, foi tipo Disney. Demorei a processar. Eu já estava apaixonado pelo cinema e, depois disso, nunca mais consegui [largar]. Já fiz outros projetos e acho que foi um dos momentos mais felizes da minha vida", finaliza.
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