A redução do risco geopolítico com o aumento das expectativas em torno de um acordo para pôr um fim à guerra no Oriente Médio, diante do anúncio da reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã, levou a uma queda global da moeda norte-americana nesta sexta-feira, 17. Por aqui, o dólar chegou a esboçar o rompimento do piso de R$ 4,95 pela manhã, com mínima de R$ 4,9508, mas reduziu bastante o ritmo de baixa ao longo da tarde, e fechou a R$ 4,9833, em queda de 0,19%.
O fôlego curto do real foi atribuído a uma rotação de posições entre divisas emergentes, com menos apetite por moedas mais ligadas ao petróleo, e à eventual saída de recursos externos da bolsa doméstica, na esteira do tombo das ações da Petrobras. Pares do real como peso chileno e rand sul-africano avançaram mais de 0,80%.
A moeda americana encerra a semana com recuo de 0,56% no mercado local, o que leva as perdas em abril para 3,77%, após avanço de 0,87% em março. No ano, o dólar cai 9,21% frente ao real, que ainda exibe os maiores ganhos entre as divisas mais líquidas, incluindo fortes e emergentes.
Para o economista-chefe do grupo CVPAR, Marcelo Fonseca, o comportamento do real nesta sexta reflete uma "acomodação natural" após uma forte rodada de apreciação. Ele ressalta que as divisas de países exportadores de energia, caso da brasileira, foram favorecidas pela arrancada recente do petróleo via melhora dos temores de troca.
Fonseca pondera que, mesmo com eventual fim da guerra, os efeitos do conflito sobre os preços de energia vão perdurar, o que mantém um cenário mais favorável a moedas de países que são produtores e exportadores de petróleo. "Não acho que o movimento de hoje é um sinal de interrupção dessa tendência", afirma o economista, que vê espaço para nova rodada de apreciação do real. "O preço elevado do petróleo ajuda na conta corrente e na questão fiscal. Devemos ter um desempenho melhor que o de pares emergentes."
As cotações do petróleo despencaram nesta sexta, emendando a segunda semana consecutiva de queda. O contrato do WTI para maio caiu 9,41%, a US$ 82,59 o barril. Já o Brent para junho - referência de preços para a Petrobras - recuou 9,06%, a US$ 90,38 o barril. No ano, o Brent acumula valorização de cerca de 50%.
Pela manhã, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, anunciou no X que a passagem de navios comerciais por Ormuz ficará completamente aberta durante o período de 10 dias de cessar-fogo entre Israel e Líbano, iniciado na quinta à noite.
Do lado norte-americano, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que Israel está proibido de bombardear o Líbano. Trump afirmou ainda também que Teerã teria concordado em "nunca mais fechar o Estreito de Ormuz". O governo do Irã, contudo, deu sinais de que pode reverter a decisão de liberar o Estreito de Ormuz caso os EUA mantenha o bloqueio às embarcações iranianas, o que moderou um pouco o apetite ao risco.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY rondava a estabilidade no fim da tarde, na casa dos 98,200 pontos, com o fortalecimento do euro. Pela manhã, havia furado o piso dos 98,000 pontos na mínima (97,632 pontos). O Dollar Index recua cerca de 0,50% na semana e mais de 1,60% no mês.
A queda do petróleo arrefeceu parte das preocupações inflacionárias, abrindo espaço para a perspectiva de retomada dos cortes de juros pelo Federal Reserve neste ano. Ferramenta de monitoramento do CME Group mostrava chances de pouco mais de 50% de o Fed reduzir a taxa básica norte-americana - hoje na faixa entre 3,50% e 3,75% - em dezembro deste ano.
Para Fonseca, do grupo CPVAR, não há espaço para afrouxamento monetário nos EUA, uma vez que a inflação ao consumidor deve superar 4% neste ano em razão do choque nos preços de energia. "O Fed parado neste ano já está no preço é muito bom para o real", afirma o economista.
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