Em menos de uma semana, a cidade de São Paulo registrou três casos de latrocínio (roubo seguido de morte), mesmo número de ocorrências registradas em todo o primeiro bimestre deste ano, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP). Um homem ainda foi hospitalizado após ser baleado na segunda-feira, 20, ao tentar proteger a namorada durante um assalto.
As ocorrências foram marcadas principalmente por ataques realizados após reações a assaltos, ação que, embora muitas vezes instintiva, é contraindicada pela polícia, e por disparos na cabeça, como no caso que vitimou uma guarda civil metropolitana. Todos os crimes ocorreram na zona sul, em bairros como Moema e Itaim Bibi.
Em nota, a secretaria afirmou que as ações de policiamento preventivo e ostensivo, bem como a fiscalização de motocicletas, foram intensificadas em todas as regiões da cidade. Disse ainda que os casos citados na reportagem são investigados pela Polícia Civil (mais abaixo).
Ao Estadão, o secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que o esclarecimento dos latrocínios recentes é "questão de honra para a polícia". "Não paramos ainda desde que aconteceram os casos. É questão de tempo (para prender os autores)", disse. Ele reforçou que a orientação é acionar a polícia o quanto antes em casos de roubo. "A gente recomenda não reagir."
Na manhã do último domingo, 19, uma guarda civil metropolitana de 34 anos foi encontrada morta na região da Saúde. A agente de segurança, identificada como Sara Andrade dos Reis, foi vítima de latrocínio na Rodovia dos Imigrantes, na altura da alça de acesso ao Viaduto Matheus Torloni.
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, Sara conduzia uma motocicleta quando foi abordada por criminosos, que levaram sua arma de fogo. Ela foi encontrada com ferimentos provocados por disparos de arma de fogo na região da cabeça e nos ombros.
Uma câmera de monitoramento registrou o momento em que dois suspeitos de envolvimento na morte da agente praticam um suposto roubo minutos antes do latrocínio. O vídeo, obtido pelo Estadão junto à empresa Gabriel, mostra duas pessoas sendo abordadas por dois homens na Rua Ouricana, no Jabaquara, zona sul (vídeo no topo).
Ao menos dois latrocínios ocorreram após reação das vítimas
Também na manhã de domingo, um homem de 46 anos foi baleado na cabeça e morreu após tentar intervir em um assalto praticado por um falso motoboy na região de Moema. O caso aconteceu na Avenida Juriti, próximo do encontro com a Avenida Ibirapuera.
O registro da ocorrência aponta que um ladrão abordou algumas pessoas que passavam pela via e anunciou o assalto. Durante a ação, a vítima, que passava pelo local, tentou impedir o assalto e foi atingida na cabeça. O homem chegou a ser socorrido, mas não resistiu. O ladrão fugiu de moto do local.
Na noite da última quinta-feira, 16, um homem de 42 anos morreu após também tentar impedir um assalto, desta vez a um entregador, na Rua das Margaridas Amarelas, no Jardim Ângela. Segundo informações da Polícia Militar, ele avançou o carro contra os suspeitos, atingindo o muro de um estabelecimento na região (foto abaixo).
Diante do impacto, os assaltantes caíram no chão, mas um deles se levantou e efetuou disparos contra o homem, conforme o registro da ocorrência. A vítima foi atingida na cabeça e morreu ainda no local. Em seguida, a dupla fugiu com a motocicleta do entregador.
Na noite da segunda-feira, 20, um homem de 26 anos foi hospitalizado após ser baleado no peito e na mão ao tentar defender a namorada de um assalto na Rua Gomes de Carvalho, na Vila Olímpia, zona sul. A previsão, segundo o portal g1, era que ele ainda passasse por uma cirurgia para remoção de uma bala de arma de fogo.
Conforme a Secretaria da Segurança Pública, as equipes das delegacias de área onde os casos ocorreram realizam diligências, com o apoio de policiais da Central Especializada de Repressão a Crimes e Ocorrências (Cerco) e das unidades seccionais, para identificar e prender os responsáveis. A pasta acrescenta que exames periciais e a análise das imagens relacionadas às ocorrências também estão em curso.
'Tente abreviar o quanto for possível o tempo junto com o criminoso'
Para o coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança, a sequência de acontecimentos não indica necessariamente que esteja havendo uma onda de crimes violentos, até pela melhora nos indicadores no período recente.
Os dados da secretaria apontam que os latrocínios estão em queda em São Paulo. Nos dois primeiros meses deste ano, foram três registros na capital (dois em janeiro e um em fevereiro), um terço dos nove casos registrados no mesmo período do ano passado.
"No fim, fica aquele velho recado de sempre: não reaja e tente abreviar o quanto for possível o tempo junto com o criminoso, para sair da situação o mais rapidamente possível", afirmou Silva Filho.
Como vem mostrando o Estadão, por conta do Pix, criminosos passaram a prolongar cada vez mais o tempo da abordagem aos alvos de roubo para obter as senhas dos aparelhos celulares. O objetivo, com acesso aos aparelhos, geralmente é realizar desvios bancários ou multiplicar o lucro com a aplicação de golpes, por exemplo.
Os casos em sequência de latrocínio ligam o alerta para essa modalidade de crime, que chamou atenção também no primeiro semestre do ano passado. Entre as ocorrências de repercussão daquela época, estão as mortes de um jovem de 23 anos alvejado na frente do namorado em Pinheiros, zona oeste, e do delegado Josenildo Belarmino, de 32 anos, baleado na Chácara Santo Antônio (sul).
O período foi marcado também pelo latrocínio do ciclista Vitor Medrado, de 46 anos, atingido por um disparo de arma de fogo à queima-roupa em fevereiro do ano passado perto do Parque do Povo, no Itaim Bibi, zona oeste. "Parece uma roleta-russa o tempo todo", disse meses depois a viúva de Medrado ao Estadão. Mais de uma dezena de suspeitos de envolvimento direto ou indireto nesses casos foram presos pela polícia no ano passado. (COLABORARAM CAIO POSSATI e RARIANE COSTA)
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