Muitos colegas se referem a Zuenir Ventura como uma "unanimidade". De fato, o jornalista de 94 anos, um dos mais relevantes do País, com rejeição quase nula, parece não ter defeitos, conforme mostra o novo documentário Mestre Zu.
"É complicado fazer um filme sem antagonista", diz o diretor Zelito Viana (Avaeté - Semente da Vingança, Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão), de 87 anos, que é irmão de Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira. "Mas eu não quis que fosse algo chapa branca".
A película, com 70 minutos de duração, tem sessões de pré-estreia nesta semana em São Paulo no É Tudo Verdade - o principal festival dedicado ao gênero na América Latina - e estreia comercial prevista para novembro. A obra retrata um homem ao mesmo tempo generoso e exigente, profundamente comprometido em interpretar e explicar o Brasil.
"Para ele, o jornalismo nunca foi apenas uma profissão, mas uma maneira de ser", resume o cineasta cearense. Amigo de Zuenir há mais de seis décadas, assumiu o comando do projeto a convite de Elisa Ventura, filha do jornalista e idealizadora do filme.
A narrativa transcorre a partir de um encontro na casa de Zelito, no Rio de Janeiro, onde jornalistas e amigos que conviveram com Zuenir revisitam memórias e anedotas. Somam-se a isso depoimentos de nomes como Cacá Diegues, Nelson Motta, Paulinho da Viola, Miriam Leitão e Heloísa Teixeira - que expressam sua admiração pelo mestre no estilo "cabeças falantes", em que diferentes vozes se alternam para contar a trajetória do biografado.
'Vampiro do New Journalism'
Oriundo de uma família humilde de Minas Gerais, Zuenir queria ser padre, mas enveredou para o jornalismo após trabalhar como assistente de Carlos Lacerda no jornal Tribuna de Imprensa. Logo ele passou a ser redator e foi correspondente em Paris.
A partir dali construiu carreira em veículos importantes como Jornal do Brasil, O Globo, IstoÉ e Veja, tornando-se referência pelo olhar atento às transformações sociais do País e por incorporar recursos literários no texto jornalístico, prática associada ao movimento New Journalism, popularizado pelos americanos Gay Talese e Truman Capote. Insaciável pela boa apuração, chegou a ser apelidado de "Vampiro" por sugar a energia dos jovens jornalistas que o cercavam nas redações.
Em 1968: O Ano Que Não Terminou, Zuenir detalha um dos anos mais intensos da história brasileira, analisado sob a ótica política e cultural. No livro-reportagem, ele reconstrói episódios decisivos, como a Passeata dos Cem Mil e a transgressão da peça Roda Viva, que colocaram uma geração de jovens de esquerda em confronto com a repressão do regime militar.
Ligado ao Cinema Novo e produtor de clássicos como Terra em Transe e Cabra Marcado para Morrer, Viana afirma que o maior acerto de sua geração foi a resistência contínua à ditadura. "A minha geração da esquerda foi para a cadeia, apanhou e lutou por 20 anos. Por outro lado, o maior erro foi ter tido certa leniência com a corrupção", afirma.
No campo do jornalismo literário, Zuenir também se destacou com Cidade Partida, vencedor do Prêmio Jabuti, em que investiga as raízes da violência no Rio, e com Chico Mendes: Crime e Castigo, fruto de reportagens premiadas sobre o assassinato do líder seringueiro.
O escritor, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) desde 2014, concedeu duas entrevistas ao documentário, mas sofreu um tombo e precisou interromper as colaborações por problemas de saúde. Mesmo assim, agora, em repouso absoluto após ser liberado de um internação, já assistiu a Mestre Zu duas vezes e, segundo a família, foi às lágrimas.
Pré-estreia de 'Mestre Zu' no É Tudo Verdade
Quando: 16 e 17 de abril
Onde: Cinemateca Brasileira (16/4, às 20h) e IMS Paulista (17/4, às 16h)
Ingressos: Entrada gratuita
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