A Agência Nacional de Telecomunicações decidiu atacar diretamente uma das engrenagens mais usadas em golpes por telefone no Brasil. Em seis medidas cautelares publicadas em 16 de setembro, a Superintendência de Controle de Obrigações da Anatel determinou o bloqueio da capacidade de originar chamadas de duas empresas e exigiu que quatro operadoras reconstruam a cadeia de encaminhamento de um volume enorme de ligações com número de origem adulterado.
As empresas bloqueadas são a ELO Contact Center Serviços, prestadora de telemarketing que operava pela rede da TIM, e a Voros Telecomunicações. A ELO foi associada a cerca de 1,76 milhão de chamadas com identificação falsificada; a Voros, a aproximadamente 2,6 milhões, cursadas por Algar, Surf, Datora e Foco Telecom. O bloqueio da ELO foi fixado em um mês. O da Voros é por prazo indeterminado: a empresa é acusada de prestar serviço de telecomunicações de forma clandestina, sem outorga, e sua liberação depende de regularizar a concessão e aderir ao sistema de autenticação de chamadas.
O segundo eixo da decisão é de investigação. A Anatel identificou quase 200 milhões de chamadas com sinais de adulteração no período entre setembro de 2025 e junho de 2026 e deu prazo de até 30 dias para que TIM, Algar, Itelco e Surf entreguem relatórios rastreando a origem desse tráfego. Só no recorte de 27 de maio a 15 de junho deste ano, a agência contabilizou 12,8 milhões de chamadas com spoofing pela Algar, 9,5 milhões pela Surf, 6,3 milhões pela Itelco e 2,1 milhões pela US Matrix. Os bloqueios deveriam ser executados em até cinco dias após a ciência da decisão.
O spoofing consiste em alterar indevidamente o número exibido ao destinatário da ligação. Na prática, permite que a chamada apareça no identificador como se viesse de um banco, de um órgão público ou de um contato conhecido — o que derruba a desconfiança da vítima e dificulta identificar quem realmente ligou. O combate se apoia no programa Origem Verificada, sistema que usa os protocolos STIR/SHAKEN para validar a identificação do chamador e corrigir vulnerabilidades da sinalização legada das redes. Em agosto, o sistema já processava cerca de 6 bilhões de ligações por mês. A medida se soma a outras ações recentes da agência, como a campanha educativa sobre chamadas abusivas e a adoção do prefixo 0303 para identificar ligações de telemarketing.
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