Existe um grupo de borboletas tropicais que parece ter encontrado um jeito de driblar o tempo. Pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, e do Instituto Smithsonian de Pesquisas Tropicais, no Panamá, mostraram que as borboletas do gênero Heliconius vivem muito mais do que parentes próximas — e, mais curioso ainda, envelhecem mais devagar. O estudo, liderado pela pesquisadora Jessica Foley, foi publicado em junho na revista científica Nature Communications.
Os números impressionam para bichos que costumam ser sinônimo de vida breve. A longevidade máxima média das Heliconius ficou em cerca de 177 dias, contra pouco menos de 58 dias nas espécies aparentadas que serviram de comparação. Um indivíduo da espécie Heliconius hewitsoni chegou a 348 dias, quase um ano de vida. No outro extremo do grupo, a Dione juno não passou de 14 dias — uma diferença de 25 vezes entre as pontas.
O detalhe mais interessante não é o tempo de vida, e sim a qualidade dele. Os cientistas mediram a força de preensão das patas, usada como indicador da função muscular, e acompanharam a perda de peso ao longo das semanas. Nas borboletas do grupo de comparação, a força caiu cerca de 26% entre a primeira e a quinta semana e a massa corporal encolhia 6,5% por semana. Nas Heliconius, nenhum declínio de força foi detectado, mesmo ao longo de uma vida bem mais longa, e a perda de peso semanal ficou em torno de 1%. É a diferença entre viver mais e viver melhor por mais tempo.
A explicação mais provável, segundo os autores, está na dieta: as Heliconius são as únicas borboletas conhecidas que se alimentam de pólen na fase adulta, o que garante aminoácidos ao longo de toda a vida. Mas a pesquisa traz uma ressalva importante — mesmo quando privadas de pólen, essas borboletas continuaram vivendo mais que as demais, o que indica fatores independentes da alimentação. Os próprios pesquisadores afirmam que não é possível estabelecer causalidade formal, porque esse hábito alimentar surgiu uma única vez na evolução do grupo, o que limita o poder estatístico das comparações. Vale reforçar o que o trabalho não fez: não mediu desempenho de voo, não testou fertilidade e não avaliou qualquer aplicação em seres humanos. A conexão com a saúde humana aparece no artigo apenas como justificativa para novas pesquisas, já que mecanismos de envelhecimento são bastante conservados entre espécies animais — e não como resultado obtido.
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