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Diário de Notícias

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'Garimpo do Mauro Mendes': senador eleito é denunciado por contrabando de 580 kg de mercúrio

O ex-governador de Mato Grosso e senador eleito Mauro Mendes (União) foi denunciado pelo Ministério Público Federal por supostamente integrar uma organização criminosa especializada no contrabando e na importação clandestina de mercúrio. Segundo a denúncia, o metal era destinado a garimpos no Pará e em Mato Grosso, estado que Mendes governou por sete anos.

O Estadão pediu manifestação de Mauro Mendes sobre as imputações. O espaço está aberto. Ele é acusado de contrabando e de manipulação irregular de resíduos perigosos.

Mauro Mendes foi eleito senador por Mato Grosso com 1.187.352 votos. Ele também é investigado na Operação Heritage, que apura suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada em um desvio de mais de R$ 308 milhões relacionado a um acordo de precatórios com a empresa de telefonia Oi S.A. Ele nega irregularidades.

O mercúrio é usado no garimpo para separar pequenas partículas de ouro dos demais minerais. Durante o processo, o metal líquido se une aos grãos de ouro e forma uma liga. A substância representa riscos graves à saúde e ao meio ambiente. Quando a amálgama é queimada, o mercúrio libera um vapor tóxico que pode causar perda de memória, insônia e fraqueza muscular. Em contato com a água, bactérias podem transformar o metal em metilmercúrio, que contamina peixes e chega ao organismo humano por meio da alimentação.

A denúncia de 56 páginas, baseada na Operação Hermes Hg, atinge, além de Mauro Mendes, o filho do ex-governador, Luis Antônio Taveira Mendes, e Rafael Martins Moreira dos Santos, conhecido como "Piqui". As empresas Mineração Aricá e Kin Mineração também são citadas na ação.

De acordo com o MPF, os envolvidos teriam adquirido ilegalmente 589,37 kg de mercúrio. A partir desse volume, os procuradores estimaram que a atividade pode ter movimentado cerca de R$ 747,5 milhões em ouro.

Cargas disfarçadas de tinta e potes de shampoo

Segundo o MPF, o grupo utilizava diferentes métodos para trazer o mercúrio ilegalmente ao Brasil, onde não há produção primária do metal e sua importação é rigidamente controlada. A substância entrava por rotas terrestres pela Bolívia, segundo os procuradores. Também foram identificadas tentativas de importação da China, com cargas disfarçadas de tinta ou potes de shampoo, e do México, por meio de encomendas aéreas.

Para escapar da fiscalização, os envolvidos escondiam o mercúrio em compartimentos secretos de veículos, garrafas plásticas, pesos de academia e até martelos ocos. A organização criminosa também teria criado "créditos" virtuais falsos no sistema do Ibama para dar aparência legal ao produto contrabandeado e permitir sua comercialização.

Segundo a denúncia, o esquema utilizava empresas que declaravam recuperar de lâmpadas quantidades de mercúrio consideradas industrialmente impossíveis. Outra prática investigada era o desvio do metal importado para uso odontológico, que acabava destinado aos garimpos.

'Garimpo do Mauro Mendes'

Durante as buscas da Operação Hermes Hg, a Polícia Federal encontrou 5,34 kg de mercúrio em uma bacia com água turva, dentro de um laboratório, além de cadernos com anotações sobre o uso da substância nas atividades minerárias.

Informações obtidas junto ao Ibama também apontaram irregularidades nas empresas investigadas. A Mineração Aricá não possuía registros de aquisição regular do mercúrio identificado na investigação, enquanto a Kin Mineração sequer tinha inscrição no Cadastro Técnico Federal de Atividades Potencialmente Poluidoras e Utilizadoras de Recursos Ambientais (CTF/APP).

A quebra de sigilo bancário revelou movimentações financeiras que, segundo o MPF, ligam as mineradoras ao esquema. Entre 18 de agosto e 6 de setembro de 2022, a Mineração Aricá transferiu R$ 104.122,93 à J.S. Torres, em três operações. A empresa também fez um pagamento direto de R$ 31 mil a Arnoldo Silva Veggi.

De acordo com a Polícia Federal, o Grupo Veggi operou, entre 2018 e 2022, uma organização criminosa transnacional voltada ao contrabando e à venda ilegal de mercúrio para garimpos na Amazônia e em Mato Grosso.

Os investigadores também encontraram notas fiscais emitidas por empresas ligadas a Edilson Rodrigues Campos para a Mineração Aricá e a Salinas Gold. Os documentos registravam mercadorias como "bolas de aço", "sucata de aço", "bolas para moinho" e "bolas de ferro", mas apresentavam diferenças nos valores unitários dos produtos.

O filho do ex-governador de Mato Grosso, Luis Antônio Taveira Mendes, aparece na investigação por sua ligação com as mineradoras. Segundo o MPF, ele participava da estrutura empresarial investigada por meio da Sollo Mineração S/A, sociedade com participação na Mineração Aricá e na Kin Mineração.

Luis Antônio também teria atuado diretamente na operação da mineradora. Em depoimento à Polícia Federal, o geólogo Bruno Kenzo Deitos afirmou que ele exercia funções gerenciais na chamada "linha 04" da planta minerária e acompanhava os trabalhos realizados no local.

O MPF reuniu elementos que, na avaliação dos procuradores, relacionam Mauro Mendes às atividades investigadas. Embora o ex-governador não apareça formalmente como sócio ou administrador da Mineração Aricá ou da Kin Mineração, seu nome foi mencionado em conversas sobre o fornecimento de mercúrio.

Em uma negociação realizada em 9 de junho de 2022, Rafael Martins afirmou que o empreendimento "É do Mauro". Quatro dias depois, em uma conversa sobre o envio de mercúrio acompanhado de uma nota fiscal disfarçada de "bola de ferro/moinho", Arnoldo Silva Veggi se referiu ao destino da remessa como "Garimpo do Mauro Mendes".

A denúncia também cita o depoimento do geólogo Bruno Kenzo Deitos, segundo o qual Mauro Mendes esteve pessoalmente nas instalações da mineradora, acompanhando obras e atividades ao lado de seu filho Luis Antônio.

"Desse modo, em ocasiões distintas e por diferentes integrantes ou intermediários do esquema de comercialização clandestina, o destinatário do mercúrio fornecido à MINERAÇÃO ARICÁ foi diretamente associado a "Mauro" e, em outra comunicação, expressamente identificado como "Mauro Mendes". Tais referências devem ser analisadas conjuntamente com os demais elementos colhidos acerca da presença de MAURO MENDES FERREIRA nas instalações da mineradora e da atuação de seu filho LUIS ANTÔNIO TAVEIRA MENDES na administração da atividade minerária", aponta o MPF na denúncia, assinada pelos procuradores Luisa Astarita Sangoi e Ricardo Perin Nardi.

Os procuradores destacam outra fala de Rafael Martins durante a negociação do fornecimento de mercúrio para a Mineração Aricá, em 9 de junho de 2022: "É do Mauro, cara! Ele é amigo do meu pai, cara. Eu tô falando pra você, eu tô correndo dentro desse trem aí, cara. Nós vamos vender".

Para o MPF, as referências ao nome de Mauro Mendes, somadas à presença dele nas instalações da mineradora e à atuação de seu filho no empreendimento, são elementos relevantes para investigar sua possível ligação com o fornecimento clandestino de mercúrio.

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