O governo federal avança na criação da chamada “Nuvem Brasileira”, projeto de infraestrutura tecnológica que pretende ampliar a soberania digital do país e reduzir a dependência de grandes empresas estrangeiras no armazenamento e processamento de dados públicos estratégicos. A iniciativa é conduzida pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, em parceria com o Serpro e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
A proposta prevê a criação de uma estrutura nacional de computação em nuvem por meio de uma parceria público-privada. Segundo a ministra da Gestão e da Inovação, Esther Dweck, o objetivo é avançar além da localização física dos servidores e garantir também maior autonomia tecnológica. O governo quer que informações consideradas sensíveis sejam operadas dentro de uma infraestrutura submetida à legislação brasileira e com menor exposição a decisões tomadas por governos estrangeiros.
Uma das preocupações citadas pelo governo envolve legislações como o Cloud Act, dos Estados Unidos. A norma permite, em determinadas circunstâncias, que autoridades norte-americanas solicitem dados mantidos por empresas dos EUA mesmo quando essas informações estão armazenadas fisicamente em outros países. Para o governo brasileiro, esse cenário reforça a necessidade de desenvolver capacidade tecnológica própria para setores considerados estratégicos.
O projeto deverá complementar a atual Nuvem de Governo, operada por empresas públicas como Serpro e Dataprev. A diferença é que a nova iniciativa pretende aprofundar a chamada soberania tecnológica, incluindo maior controle sobre sistemas, códigos e infraestrutura utilizados no processamento das informações. Grandes companhias estrangeiras de tecnologia não deverão controlar a estrutura proposta pelo governo.
A iniciativa também está ligada ao avanço da inteligência artificial no setor público. O governo anunciou investimentos de R$ 2,1 bilhões para a aquisição de dois supercomputadores voltados à IA, que poderão ampliar a capacidade nacional de processamento de grandes volumes de dados e apoiar o desenvolvimento de modelos e serviços digitais.
Antes da definição do formato definitivo, foram realizadas consulta de mercado e audiência pública, além de reuniões com empresas interessadas. A expectativa é que o edital para a escolha dos parceiros da nova estrutura seja lançado em novembro.
A criação da Nuvem Brasileira ocorre em um momento de crescente disputa internacional pelo domínio de tecnologias estratégicas, como inteligência artificial, semicondutores, centros de dados e computação em nuvem. Para o Brasil, o projeto representa uma tentativa de aumentar a autonomia sobre informações governamentais e construir uma infraestrutura digital menos dependente das grandes plataformas estrangeiras.
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