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Diário de Notícias

DN.

Juiz manda pôr tornozeleira em investigadora da Polícia Civil por tráfico de influência

Os investigadores da Polícia Civil de São Paulo Tânia Aparecida Nastri e Carlos Huerta foram alvos de uma operação de busca e apreensão nesta quinta-feira, 12, sob suspeita de integrarem organização criminosa por meio de tráfico de influência, violação de sigilo funcional, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Segundo a investigação conduzida por promotores do Gaeco (grupo do Ministério Público que combate o crime organizado) e pela Corregedoria da Polícia, Tânia e Huerta alegavam proximidade com a cúpula da Delegacia-Geral de Polícia. A investigação mostra que o ex-delegado-geral Nico Gonçalves - atual secretário de Segurança Pública -, e também o deputado estadual Delegado Olim foram vítimas dos investigadores que usaram seus nomes para tentar interferir em apurações internas da Corregedoria.

A reportagem busca contato com Tânia e Huerta. O espaço está aberto.

Os passos dos dois investigadores começaram a ser rastreados a partir da prisão de outros dois policiais - Valdenir Paulo de Almeida, o 'Xixo', e Valmir Pinheiro, conhecido como 'Bolsonaro' -, em setembro de 2024 por supostamente receberem propina de R$ 800 mil do crime organizado para barrar investigações contra faccionados.

"A análise do material compartilhado revelou o conteúdo de whatsApp do celular de Valdenir Paulo de Almeida, vulgo 'Xixo', sendo constatada troca de mensagens com a investigadora de polícia Tânia Aparecida Nastri e com o investigador de polícia Carlos Huerta", diz a decisão que autorizou as buscas, assinada pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital.

Os dois investigadores estão proibidos de deixar as cidades onde residem (Tânia mora em São Paulo, Huerta em Atibaia) por mais de cinco dias sem autorização judicial. Também tiveram o exercício da função pública suspenso e os passaportes e armas apreendidos. Ambos passam a usar tornozeleira eletrônica, em decisão inédita da Justiça que determina o monitoramento dos policiais suspeitos até o encerramento das apurações.

Ao todo, sete endereços foram alvo de buscas nesta quinta-feira, 12, incluindo a sede do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (DOPE), no bairro da Luz, onde Tânia trabalha, e a sede do 13º Distrito Policial, na Casa Verde, onde Huerta chefia os investigadores.

Com Tânia, os agentes apreenderam US$ 10 mil, R$ 20 mil em espécie, além de celulares e um notebook. Na casa de Huerta, foram recolhidos celulares e notebooks.

Durante a Operação Face Off, deflagrada em setembro de 2024, o celular de 'Xixo' foi apreendido e, em análise posterior da perícia pela Polícia Federal, revelou conversas com o investigador Carlos Huerta.

Segundo a Corregedoria e promotores do Gaeco, para reforçar sua influência junto à cúpula da corporação e resolver problemas particulares, de seu parceiro 'Bolsonaro' e do próprio Huerta, 'Xixo' afirmou que iria "mexer seus pauzinhos" e que tinha "uma mulher lá" - na Delegacia-Geral de Polícia ou na própria Corregedoria Geral.

"Vou dar uma mexidinha nos pauzinhos para nós aí, tá? Qualquer coisa te dou um alô também, está bom, amigo? Tenho que correr atrás dessa porra aí', escreveu 'Xixo' em maio de 2022.

"Não, está bom, velho, tenta sim porque...É, aquilo lá, né? Estão pedindo os imóveis de todo mundo, essas coisas aí... foda, viu? Vamos que vamos, velho, vai dar tudo certo, se Deus quiser", respondeu Huerta, referindo-se a uma investigação da Corregedoria no rastro da evolução patrimonial do grupo.

Para o Ministério Público, "Huerta demonstra muita preocupação e afirma que a Corregedoria está realizando apuração de evolução patrimonial (pesquisa de imóveis) sua e demais investigados, e pede assim que 'Xixo' tente realizar tráfico de influência em interesse particular dos investigados pela Corregedoria junto à Delegacia Geral de Polícia".

A partir da recuperação de um diálogo de 6 de junho de 2022, a investigação do Corregedoria e do Gaeco concluiu que Huerta repassou a 'Xixo' o nome da delegada responsável por conduzir a Apuração Preliminar na Divisão de Apurações Preliminares da Corregedoria Geral da Polícia Civil de São Paulo, Juliana Pereira Romagnolli.

Segundo os autos, Huerta adotava como método a invasão de sistemas internos da Polícia Civil para levantar informações sobre policiais considerados 'obstáculos'. De posse desses dados, especialmente sobre a autoridade responsável por procedimentos disciplinares, os investigados tentariam exercer influência, valendo-se do prestígio funcional, junto a pessoas ligadas às apurações da Corregedoria.

Em agosto de 2022, Tânia e 'Xixo' trocaram fotos e imagens relacionadas à Apuração Preliminar que tramitava na Corregedoria.

'Xixo' enviou a Tânia um extrato obtido na plataforma GPI, Gestão Policial Integrada da Polícia Civil de São Paulo, com dados biométricos e de qualificação da delegada Juliana Pereira Romagnoli Elias, apontada em conversas anteriores com Huerta como responsável pela presidência daquela apuração.

Segundo a Corregedoria, a plataforma GPI é de uso restrito e destinada exclusivamente a consultas vinculadas a demandas administrativas ou criminais envolvendo policiais civis, no âmbito da própria instituição.

Em seguida, Tânia enviou a 'Xixo' uma foto tirada por ela em um evento institucional. Na imagem aparecem, em primeiro plano, o então delegado-geral da Polícia Civil, Osvaldo Nico Gonçalves, ao lado de outro participante. Ao fundo, também é possível identificar a delegada seccional Elaine Maria Biasoli, titular da 2ª Delegacia Seccional de Polícia, na zona Sul.

À época, 'Xixo' e 'Bolsonaro' atuavam na 4ª Delegacia Seccional, enquanto Tânia exercia a função de investigadora-chefe na 2ª Delegacia Seccional. Embora não houvesse subordinação direta entre eles, a Corregedoria aponta que existia relação funcional que reforçaria a influência atribuída a Tânia no grupo. O Ministério Público e a Corregedoria estão convencidos de que Tânia usava a imagem ao lado de superiores hierárquicos para reforçar prestígio interno.

Na sequência, 'Xixo' encaminhou a Tânia a foto de um e-mail impresso, enviado pela Equipe E da Divisão de Apurações Preliminares e assinado pela delegada Juliana Romagnoli. O documento era direcionado à 4ª Delegacia Seccional e convocava o policial Valmir Pinheiro, o 'Bolsonaro', para prestar depoimento em 29 de setembro de 2022, às 15h, no âmbito da Apuração Preliminar 025 de 2022.

Em conversa mantida em 4 de dezembro de 2023, 'Xixo' encaminhou a Tânia duas fotos tiradas na Assembleia Legislativa. Na sequência, os dois trocaram mensagens nas quais, segundo a investigação, "'Xixo' se vangloria do vínculo criado".

'Presentes'

Em sua decisão, o juiz Paulo Fernando Deroma de Mello afirma que Tânia e Huerta fariam a "intermediação de encontros extraoficiais entre policiais investigados e autoridades, em padarias ou locais reservados, sempre à margem dos trâmites oficiais".

O despacho também aponta que os investigadores promoviam a "solicitação e recebimento de vantagens pessoais, como 'presentes', inclusive em espécie, e promessa de passagens internacionais, movimentação funcional indevida, com interferência em transferências, escalas e designações de policiais".

A suspeita é que os dois investigadores usavam terceiros ('laranjas') ou empresas 'para dissimulação financeira e eventual lavagem de capitais'.

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