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Mensagens apontam Vorcaro como sócio de rede de prostituição e recrutamento, diz portal

Mensagens detalham uma estrutura de recrutamento de mulheres para festas privadas promovidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, com a participação de agenciadores e organizadores de eventos. As conversas indicam que brasileiras e estrangeiras eram levadas a encontros com Vorcaro, amigos e convidados, incluindo autoridades, no Brasil e no exterior. A informação foi revelada pelo portal UOL nesta terça-feira, 13.

Os diálogos indicam que a atuação de Vorcaro ia além da contratação de acompanhantes. O banqueiro discutia a seleção das mulheres, decidia quem permaneceria no grupo, negociava valores e participava do planejamento dos eventos. As conversas também apontam para a intenção de criar ou utilizar uma agência de modelos para centralizar as contratações.

Procurada, a defesa do dono do Banco Master afirmou que não vai se manifestar sobre o assunto.

O caso é investigado pela Polícia Federal, que abriu um inquérito em maio para apurar a participação de garotas de programa estrangeiras e possíveis irregularidades na contratação dos serviços.

A prostituição não é crime no Brasil. Já o favorecimento da prostituição por terceiros, a exploração sexual e a manutenção de estabelecimentos destinados a essa finalidade podem configurar crimes, conforme as circunstâncias. A eventual ocorrência de tráfico internacional de pessoas também depende da apuração dos fatos e dos requisitos previstos em lei.

De acordo com o UOL, entre os principais nomes investigados estão Leonardo Serrano, proprietário de uma empresa de eventos, e Diogo Batista, promotor de eventos em São Paulo que, segundo as mensagens, recebia R$ 120 mil mensais de Vorcaro.

Mulheres eram distribuídas conforme tipo de evento e preferência de Vorcaro

Vorcaro e Diogo Batista chamavam as mulheres de "escravas" e "kengas", além de discutirem formas de recrutamento, seleção e contratação delas.

Em mensagens reveladas pelo UOL, Diogo escreveu expressões como "escravinha doutrinada" e disse "vou já escravizar ela pra hoje e fazer trabalhar pra gente aí". Em outra conversa, mencionou a possibilidade de levar duas mulheres do Rio de Janeiro.

As mulheres mais jovens recebiam o apelido de "creche". Em 2024, Vorcaro escreveu a Diogo que o grupo havia consumido sua semana e fez uma referência sexual ao número de mulheres envolvidas. "Nossa creche me consumiu semana toda kkk. Queria ter duas pirocas", disse Vorcaro a Diogo naquele ano.

Os diálogos indicam que as mulheres eram distribuídas conforme o tipo de evento e a preferência de Vorcaro. Parte delas seria destinada a encontros privados, enquanto outras seriam recrutadas para festas com maior número de convidados.

Refugiada ucraniana entrou no planejamento do grupo

Entre os episódios está o de uma jovem ucraniana de 19 anos, refugiada da guerra, que chegou ao grupo em outubro de 2023, durante a organização de uma festa de Halloween.

No início de novembro daquele ano, Vorcaro informou que não pagaria mais hospedagem ou passagens para mulheres que decidissem permanecer no Brasil. A jovem ficou no País, e as conversas posteriores passaram a tratar de sua situação.

Em 7 de novembro, Diogo informou que havia três refugiadas ucranianas no grupo. Vorcaro respondeu que queria que pelo menos uma delas permanecesse para ele.

Dias depois, Diogo compartilhou dados do passaporte da jovem para organizar seu deslocamento ao Rio de Janeiro. No fim daquele mês, explicou que ela não poderia voltar à Ucrânia porque seus pais consideravam a situação no país perigosa.

Na mesma conversa, surgiu a proposta de incluir as refugiadas em uma agência. "Bora colocar elas na agência e daí lavamos as mãos", escreveu Diogo, segundo as mensagens obtidas pelo UOL.

Em dezembro, o promotor relatou que a jovem não tinha para onde ir e que a cidade de origem estava sendo bombardeada. Disse ainda que a havia mantido no grupo porque ela pretendia buscar refúgio na Itália. Na sequência, mencionou a possibilidade de ela ingressar na agência.

A ideia voltou a aparecer em janeiro de 2024, quando Diogo propôs abrir a empresa e alugar uma casa ou um apartamento para as mulheres. Em março, a jovem foi mencionada entre as mulheres encaminhadas para um jantar de Vorcaro em um bar nos Jardins, em São Paulo.

Em abril, Vorcaro determinou que mulheres da Ucrânia e da Rússia fossem mandadas embora. Depois, afirmou que avaliaria pessoalmente quem permaneceria e quem deixaria o grupo.

Agência de modelos teria sido usada para organizar contratações

As mensagens também mostram discussões sobre a aquisição de participação na Allure Eventos, agência de modelos que, segundo a reportagem do UOL, teria sido considerada para centralizar o recrutamento das mulheres.

Em dezembro de 2023, Vorcaro recebeu um contrato que previa a compra de 50% da empresa, pertencente a Felipe Nisti Cataldo, por R$ 1,5 milhão. Em janeiro de 2024, Diogo informou que o documento havia sido assinado e afirmou que, com isso, estariam "blindados".

O pagamento teria sido dividido em três parcelas de R$ 500 mil. Segundo o UOL, um comprovante encontrado no celular de Vorcaro registra uma transferência via Pix da Super Empreendimentos para Nisti.

A negociação, entretanto, é contestada. Procurado pelo UOL, Felipe Nisti afirmou que Vorcaro demonstrou interesse no negócio, mas negou que a transação tivesse avançado nos termos descritos nas conversas. Sobre a transferência de R$ 500 mil, declarou que precisaria verificar sua origem e finalidade.

Em outubro de 2023, o empresário Tiago Polo, que trabalhava com Diogo, já havia apresentado a Vorcaro a ideia de utilizar uma agência para organizar a contratação das mulheres. Segundo uma mensagem reproduzida pelo UOL, o objetivo seria "ajustar as meninas indiretamente".

Em janeiro de 2024, Vorcaro pediu que Tiago viajasse ao Sul do País para buscar mulheres para o cadastramento na Allure. No mesmo mês, Diogo solicitou R$ 500 mil para alugar uma casa destinada às modelos. Vorcaro respondeu que os funcionários do local deveriam ser exclusivamente mulheres.

Em maio daquele ano, Diogo propôs dividir as recrutadas em dois grupos: um destinado a encontros privados e outro a eventos com maior volume de participantes.

Festas no Brasil e no exterior mobilizavam dezenas de mulheres

A estrutura descrita nas mensagens não se limitava a São Paulo. De acordo com a apuração do UOL, eventos e viagens organizados pelo grupo envolveram mulheres recrutadas no Brasil e em outros países, com deslocamentos para cidades como Paris, Londres, Roma e Dubai.

A logística internacional ficava, em parte, sob responsabilidade de Leonardo Serrano, dono da SL Consulting, empresa sediada na Flórida. Nas conversas, ele organizava passagens, hospedagens, repasses de dinheiro e contatos com promotores locais.

Em uma festa de Halloween realizada em outubro de 2023, na boate Madame Satã, em São Paulo, Serrano mencionou 74 mulheres. Diogo teria levado outras 40, hospedadas em 21 quartos do hotel Rosewood. Em outra mensagem, o total citado ultrapassava 120 mulheres.

Em junho de 2024, durante a preparação de uma festa na França, Serrano propôs disponibilizar 3 mil euros para compras a cada uma de oito mulheres. Vorcaro sugeriu elevar o valor para 4 mil euros e fez uma referência depreciativa às participantes.

Segundo o UOL, um evento realizado em Londres em abril de 2024 contou com a presença de autoridades de Brasília, e Vorcaro pediu que mulheres fossem levadas ao seu quarto de hotel. No dia seguinte, solicitou que outras mulheres fossem encaminhadas caso fossem consideradas adequadas. As mensagens mencionavam 99 mulheres levadas para trabalhar no evento.

Em outra viagem a Londres, em março de 2024, o grupo discutiu a contratação de mulheres e profissionais do sexo masculinos para uma casa noturna. Estes últimos eram chamados de "macacos" nas conversas.

Já em Roma, em outubro de 2024, Serrano contabilizou grupos de mulheres recrutadas por diferentes intermediários, além de participantes que haviam viajado do Brasil. Parte delas seguiria posteriormente para Dubai.

O planejamento também alcançava o carnaval de 2025, quando Diogo solicitou a ida de aproximadamente 15 mulheres estrangeiras para festas no Rio de Janeiro.

As mensagens revelam ainda divergências entre os envolvidos sobre responsabilidades e possíveis consequências do esquema. Em fevereiro de 2024, Serrano negou estar envolvido em tráfico de pessoas e atribuiu a responsabilidade a Diogo. Meses depois, reclamou das mulheres encaminhadas pelo promotor e afirmou que não assumiria a responsabilidade por elas.

As declarações, por si só, não comprovam a prática de tráfico internacional de pessoas. A investigação deverá esclarecer as condições de recrutamento, deslocamento, permanência e eventual exploração das mulheres.

Faturas milionárias e pagamentos a intermediários

A SL Consulting cobrava despesas relacionadas aos eventos por meio de faturas. O UOL identificou 21 documentos emitidos entre abril de 2024 e março de 2025, que somavam aproximadamente US$ 70 milhões.

As cobranças eram encaminhadas à Moriah Asset, gestora sediada em Belo Horizonte, sob descrições relacionadas a eventos, hospitalidade, hospedagem e fretamentos. Segundo o site, Vorcaro repassava as faturas ao setor financeiro do Banco Master.

As despesas com mulheres no Brasil eram direcionadas para outra empresa, a Prime You. Em novembro de 2023, Serrano escreveu que as passagens aéreas e os hotéis seriam faturados para essa companhia.

Diogo também recebia valores por intermédio de Serrano, além de transferências via Pix para sua própria conta. Em setembro e outubro de 2024, Serrano solicitou autorização para pagar faturas de R$ 350 mil e R$ 260 mil relacionadas ao grupo de Diogo.

Em janeiro de 2025, Vorcaro determinou a interrupção dos pagamentos ligados ao promotor.

Vorcaro aparecia como responsável pelas decisões

As conversas sugerem uma divisão de funções na qual Diogo organizava as atividades e mantinha contato com as mulheres, enquanto Vorcaro decidia quais seriam selecionadas, quais permaneceriam e quanto seria pago.

Em uma das mensagens, Diogo descreveu a relação de hierarquia entre os dois: "Vc é o chefe e eu seu Cavaleiro PitBull!". Em outra ocasião, escreveu: "Chefe manda e a gente executa".

Os diálogos também mostram o promotor de eventos pedindo autorização para realizar pagamentos e solicitando que Vorcaro escolhesse as mulheres que fariam parte do grupo mais próximo do banqueiro.

Em novembro de 2023, Vorcaro determinou que todas fossem dispensadas para que o processo começasse novamente. Nos meses seguintes, solicitou novas seleções, inclusive de mulheres do Sul do Brasil, e discutiu a utilização da agência para formalizar contratações e providenciar vistos.

Em março de 2024, Diogo afirmou que estava preparando as mulheres escolhidas por Vorcaro e que aguardava a decisão final do banqueiro. Entre as candidatas mencionadas estava a refugiada ucraniana de 19 anos.

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