O Amazonas registrou 2.384 focos de calor entre 1º e 19 de setembro, contra 624 no mesmo intervalo do ano passado — uma alta de 282%, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. No acumulado do ano, o estado chegou a 4.998 focos até o dia 20. Nas 48 horas anteriores a esta segunda-feira, o Amazonas liderava o país, com 446 registros, à frente de Pará, Mato Grosso, Maranhão, Tocantins e Acre.
O fogo se concentra no interior. Na primeira semana do mês, seis dos dez municípios brasileiros com mais focos de calor eram amazonenses: Novo Aripuanã, Manacapuru, Apuí, Autazes, Lábrea e Caapiranga. Os outros quatro ficavam no Pará. O comandante do Corpo de Bombeiros do estado, coronel Orleilso Muniz, já havia projetado que o pico das queimadas viria em setembro. O governo estadual lançou em maio a Operação Amazonas Mais Verde, com o envio de mais de cem bombeiros a municípios do interior e a contratação de 153 brigadistas adicionais.
O efeito chegou a Manaus na forma de fumaça persistente. Na manhã de 17 de setembro, medições do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, da Universidade do Estado do Amazonas, apontaram 129,5 microgramas por metro cúbico no bairro da Compensa e 126,8 em Manaquiri, índices classificados como péssimos. A Organização Mundial da Saúde recomenda teto de 15 microgramas na média de 24 horas, ou seja, a Compensa registrou quase nove vezes esse limite. Parque Dez, Cachoeirinha, Aparecida e Morro da Liberdade ficaram na faixa considerada muito ruim. Moradores relatam dor de cabeça, enjoo e ressecamento nasal, e a Defesa Civil orientou reduzir a exposição prolongada e evitar atividade física ao ar livre.
Há divergência sobre a origem da fumaça. O pesquisador Rodrigo Augusto Ferreira de Souza, da UEA, associa o fenômeno às queimadas na própria região metropolitana de Manaus, enquanto a prefeitura atribui a névoa a focos no sul do Amazonas, norte do Mato Grosso e Rondônia, transportados por ventos de baixa altitude após o avanço de uma frente fria. O contraste mais incômodo, porém, é outro: enquanto o fogo sobe, o desmatamento cai. Dados do sistema Deter, também do INPE, mostraram em agosto os alertas de derrubada no menor patamar da série histórica, com queda de 37,5% na Amazônia entre agosto de 2025 e maio de 2026 — e de 46,7% no Amazonas. Derrubar menos floresta, portanto, não tem significado queimar menos.
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