Na Amazônia, o rio é estrada, é torneira e é despensa. Quando ele encolhe, a vida trava. Um levantamento divulgado pelo MapBiomas em 4 de setembro colocou números nesse problema: durante o El Niño de 2024, entre setembro e novembro, 2.172 das 5.673 localidades habitadas do bioma — o equivalente a 38% — estiveram altamente expostas à seca. O estudo cruzou dados de perda de superfície de água com o mapa de localidades do IBGE, que inclui cidades, vilas, comunidades indígenas, quilombolas e agrovilas de assentamento.
Os números do período são expressivos. A superfície de água na Amazônia ficou 1,9 milhão de hectares abaixo da média histórica da série iniciada em 1985. A chuva foi 27% menor que a média, e a temperatura máxima média ficou 2,6 °C acima do normal. O estudo aponta ainda que 5.273 localidades, ou 93% do total, estão a até cinco quilômetros de áreas que perderam superfície de água — indicador que diz muito sobre o padrão ribeirinho de ocupação do bioma e deve ser lido com cuidado, já que quase toda comunidade amazônica fica perto de algum corpo d'água. O dado mais robusto, segundo a própria metodologia, é o dos 38%.
O levantamento foi divulgado não como retrospectiva, mas como linha de base para o que pode vir agora. Em boletim de 1º de setembro, o INMET apontou 90% de probabilidade de um El Niño classificado como "muito forte" no trimestre de setembro a novembro de 2026, com anomalias de temperatura da superfície do mar acima de 2,0 °C no Pacífico equatorial e mais de 90% de chance de o fenômeno persistir até o início de 2027. A projeção citada pela coordenação do MapBiomas Atmosfera é de chuva abaixo da média e temperatura até 1 °C acima do normal na Amazônia neste período. São probabilidades, não certezas — e o termo "super El Niño", que circula em manchetes, não é classificação técnica oficial.
Por trás do fenômeno climático há um pano de fundo estrutural. Em 41 anos de série histórica, entre 1985 e 2025, a Amazônia perdeu 53,9 milhões de hectares de vegetação nativa, uma redução de 14%, enquanto a área ocupada por agropecuária saltou de 12,1 para 65,3 milhões de hectares. Ainda assim, 81,3% do bioma mantém vegetação nativa. Cabe registrar dois pontos: o estudo mede exposição e risco, não impactos já verificados sobre a população, e a coleção de dados atmosféricos usada está em versão preliminar. Vale também notar que os alertas de desmatamento do sistema DETER, do INPE, ficaram em 2026 nos menores patamares da série histórica — ou seja, queda no desmatamento e aumento da vulnerabilidade climática estão convivendo no mesmo período.
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