0

Diário de Notícias

DN.

Terapia genética consegue restaurar audição em crianças com surdez hereditária

Terapia genética consegue restaurar audição em crianças com surdez hereditária

Uma terapia genética aplicada em dose única vem devolvendo a audição a crianças e jovens nascidos com uma forma hereditária de surdez profunda. O tratamento age sobre mutações no gene OTOF, responsável pela produção da otoferlina, proteína essencial para que as células sensoriais do ouvido interno convertam vibrações sonoras em impulsos nervosos. Sem ela, o ouvido capta o som, mas a mensagem não chega ao cérebro.

Os resultados mais robustos até agora vêm de um estudo conduzido em oito centros na China, com 42 participantes de 8 meses a 32 anos, e publicado na revista Nature em abril deste ano. A pesquisa reúne equipes do Massachusetts Eye and Ear, ligado à Escola de Medicina de Harvard, e do Hospital de Olhos e Otorrinolaringologia da Universidade Fudan, em Xangai. Cerca de 90% dos pacientes apresentaram recuperação auditiva. Os limiares de audição, que antes do tratamento superavam 97 decibéis — faixa correspondente à surdez profunda —, caíram para algo entre 42 e 54 decibéis ao longo de dois anos e meio de acompanhamento. Metade do grupo alcançou níveis considerados normais, a ponto de distinguir sussurros.

O procedimento consiste em uma injeção que leva uma cópia funcional do gene até a cóclea por meio de um vetor viral modificado, sem capacidade de causar doença. O efeito começa a aparecer em poucas semanas, e o acompanhamento indica que o ganho se sustenta ao longo do tempo. Não foi observada toxicidade que obrigasse a limitar a dose; entre os eventos adversos registrados estiveram quedas na contagem de neutrófilos, controladas durante o seguimento clínico.

Em abril, a agência regulatória dos Estados Unidos aprovou a primeira terapia genética voltada a essa forma de perda auditiva, sob nome comercial Otarmeni, marcando a entrada do tratamento na prática clínica. O alcance, porém, ainda é restrito: as mutações no OTOF respondem por uma fatia pequena dos casos de surdez congênita, e o benefício tende a ser maior quanto mais cedo a intervenção acontece, o que reforça a importância da triagem auditiva neonatal e do diagnóstico genético precoce. Pesquisadores já trabalham em abordagens semelhantes para outros genes ligados à audição.

0 Comentário(s)

Faça login para comentar.