Em 2010, o cineasta e produtor Travis Knight leu as primeiras páginas de um livro que ainda nem estava terminado e soube que queria transformá-lo em filme. O problema é que não fazia ideia de como. Dezesseis anos depois, O Bosque Selvagem, nova animação em stop-motion da Laika, chegou aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 29. Para o diretor, a longa espera não foi um atraso a ser superado, mas parte fundamental do processo que tornou o projeto possível.
O livro em questão era de Colin Meloy, escritor e vocalista da banda americana The Decemberists. Knight teve acesso antecipado ao manuscrito e se encantou com o universo que o autor estava construindo. "Eu me apaixonei desde a primeira frase. Havia algo mágico, algo maravilhoso", lembra, em entrevista ao Estadão.
A aventura reunia civilizações em guerra, sociedades antigas, figuras sombrias e magia, em uma tradição de fantasia que remete a autores como J.R.R. Tolkien, L. Frank Baum, C.S. Lewis e Roald Dahl, referências que acompanharam Knight desde a infância. Havia, porém, algo que tornava a obra diferente dos clássicos que a inspiraram: a personalidade de Meloy. "Ele tem uma voz única, uma sensibilidade única", afirma.
O cineasta começou a conversar com o escritor sobre uma adaptação para o cinema. A paixão pela história estava resolvida; a maneira de levá-la às telas, não. Naquele momento, a Laika havia produzido apenas Coraline e o Mundo Secreto, seu longa de estreia em 2009. O livro exigia um salto considerável: muitos personagens, cenários variados, um universo fantástico de grandes proporções e sequências de ação que precisavam funcionar com bonecos movimentados quadro a quadro. Não bastava ter uma boa história. Era necessário desenvolver os recursos técnicos e a experiência de produção para fazer justiça à escala da aventura. "Estava muito além do que tínhamos feito e do que eu sabia que éramos capazes de fazer naquele momento", diz Knight.
Uma floresta que exigia crescimento
A solução foi esperar, principalmente enquanto o estúdio amadurecia. Nos anos seguintes, a Laika lançou ParaNorman (2012), Os Boxtrolls (2014), Kubo e as Cordas Mágicas (2016) e Link Perdido (2019). Cada produção ampliou a experiência da equipe e ajudou a desenvolver as ferramentas necessárias para enfrentar projetos cada vez mais complexos.
Knight voltou à direção de um longa de animação com Kubo e as Cordas Mágicas, há dez anos. Agora, em O Bosque Selvagem, reencontra uma técnica à qual dedica a vida desde a infância. Ele aprendeu a animar por conta própria ainda criança e vê o stop-motion como uma forma de expressão que vai muito além de um método de produção.
O que é stop-motion?
"É a coisa mais difícil que já assumi. É também o filme mais desafiador que a Laika já tentou fazer", afirma. A dificuldade, no entanto, faz parte da identidade do estúdio. Knight descreve os artistas e artesãos com quem trabalha como profissionais que não se contentam em repetir fórmulas: querem testar os limites da técnica e levar o meio a territórios ainda inexplorados. "Com O Bosque Selvagem, tivemos de fazer isso porque o próprio filme exigia", diz.
A ambição da produção acompanha a própria história. No longa, a adolescente Prue McKeel parte para uma floresta misteriosa depois que seu irmão bebê é levado por corvos. Ao lado do colega Curtis, ela entra em um território desconhecido, habitado por animais falantes, criaturas fantásticas e figuras perigosas. O que começa como uma missão de resgate se transforma em uma jornada de amadurecimento, na qual coragem, medo e amor são colocados à prova.
A aventura precisava preservar a dimensão fantástica do livro de Meloy sem perder a intimidade das emoções que movem a protagonista. Para Knight, esse equilíbrio é essencial: a escala de um filme não deve se sobrepor àquilo que faz o público se importar com seus personagens.
É também por isso que a espera foi importante. Ao longo dos anos, a Laika acumulou experiência em animação, fotografia, construção de cenários e desenvolvimento de personagens. O diretor não trata esse percurso como uma simples evolução tecnológica, mas como um processo de formação artística. Era preciso que a equipe estivesse preparada para executar uma obra cuja complexidade ultrapassava tudo o que havia feito antes.
A humanidade quadro a quadro
Apesar dos avanços acumulados pelo estúdio, o princípio do stop-motion permanece praticamente o mesmo desde os primeiros experimentos da técnica, há mais de um século. Há um boneco em um cenário, luzes, uma câmera e um animador que movimenta o personagem com as próprias mãos. Cada pequeno gesto é fotografado individualmente; quando os quadros são exibidos em sequência, o boneco ganha vida.
"Ao reduzir o stop-motion à sua essência, temos um boneco em um cenário, iluminado e filmado por uma câmera, enquanto um animador usa as mãos e a imaginação para dar vida ao personagem, um quadro de cada vez", explica Knight.
A Laika combina esse processo artesanal com ferramentas científicas e tecnológicas avançadas. A contradição é que, em vez de necessariamente simplificar o trabalho, esses recursos podem torná-lo ainda mais complexo. A tecnologia amplia as possibilidades da equipe, mas não elimina a necessidade de decisões artísticas e de um trabalho minucioso.
Essa defesa do trabalho manual ganha um significado particular em um momento em que a inteligência artificial transforma a produção de imagens e provoca discussões sobre o futuro de diferentes profissões criativas. Knight reconhece o alcance dessas ferramentas e entende a preocupação de quem teme seus efeitos sobre a indústria cinematográfica.
"É uma tecnologia extraordinária, transformadora. As pessoas têm razão em temê-la, porque ela vai mudar o mundo. Já está mudando o mundo e também vai transformar a indústria do cinema e os efeitos visuais", afirma.
Para o cineasta, porém, existe uma diferença fundamental entre produzir imagens e expressar experiências humanas. No stop-motion, cada elemento visível é resultado de uma decisão: os bonecos são construídos, os figurinos são confeccionados, os cenários são montados e cada movimento é realizado manualmente. Nada aparece por acaso. "Cada coisa que você vê em um filme de stop-motion é uma escolha criativa, uma escolha artística. Nada vem de graça", diz.
É nesse processo que Knight encontra a especificidade da técnica. A materialidade dos objetos e a presença dos artistas não são apenas características de produção, mas parte daquilo que o espectador percebe na imagem, mesmo sem necessariamente identificar cada etapa do trabalho.
O diretor acredita que a inteligência artificial pode imitar resultados visuais, mas não reproduzir de maneira autêntica a experiência de quem cria. "Uma máquina nunca amou. Nunca sentiu medo, nunca sentiu alegria, nunca teve o coração partido, nunca fez um amigo nem sofreu uma perda. Só as pessoas passaram por isso. E só elas conseguem expressar essas emoções de maneira autêntica e real."
A afirmação não significa que Knight ignore a tecnologia. Afinal, a própria Laika incorporou ferramentas sofisticadas ao seu processo ao longo dos anos. Sua defesa é outra: os recursos técnicos devem estar a serviço da imaginação humana, e não substituir a experiência que dá sentido à obra. "Uma máquina pode tentar imitar essas emoções, mas nunca conseguirá fazê-lo de maneira autêntica", afirma.
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