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'Banquete musical': Mônica Salmaso fala do novo álbum, Elizeth Cardoso e repertório desafiador

O álbum que Mônica Salmaso lança agora, Senhora das Canções - Um Tributo a Elizeth, teve sua semente plantada há cerca de seis anos, quando ela se juntou com os músicos da Casa do Choro para três shows em homenagem ao centenário de Elizeth Cardoso (1920-1990), todos com ingressos já esgotados. Porém, isso foi justamente na semana em que o mundo parou - e ficou tudo estranho para a arte - em função da pandemia de covid.

Para citar uma canção de Cartola que Elizeth gravou: "o inverno do meu tempo começa a brotar, a minar". A ideia jamais foi deixada para trás, os shows ocorreram quando tudo reabriu. O registro lançado agora foi feito em 2025 em estúdio, com afeto de ao vivo, em um único dia. Generosamente - são 16 faixas no álbum da gravadora Biscoito Fino, que, além das plataformas digitais, também está disponível em CD, para a alegria dos colecionadores.

Senhora das Canções - Um Tributo a Elizeth também é uma obra de músicos. Não à toa, o nome deles aparece na capa, ao lado de Mônica - Luciana Rabello (cavaquinho), Mauricio Carrilho (violão de 7 cordas), Paulo Aragão (violão, direção musical e arranjos), Aquiles Moraes (trompete e flugelhorn), Magno Júlio (percussão), Marcus Thadeu (percussão), turma ligada à Casa do Choro. Teco Cardoso (flautas) e Nailor Proveta (clarinete), que habitualmente tocam com ela, também participam.

Mônica já conhecia a turma da Casa do Choro há um bom tempo, na verdade. Seu primeiro contato foi com a Escola Portátil de Música (EPM), projeto da Casa do Choro de ensino do gênero a jovens e adultos. Em um sábado, esteve na Ladeira da Glória, no Rio de Janeiro, antigo endereço da instituição, para conhecer o "bandão". "Quando desci do táxi, ouvi uma polca, parecia que ela descia a ladeira. Quando entrei na casa, vi os músicos tocando embaixo de uma árvore. Comecei a chorar", lembra.

"É uma homenagem a Elizeth, mas também um disco de encontro com essa turma, músicos que são amigos queridos há muito tempo. É um privilégio enorme estar com eles. Esse álbum é uma festa da música, um banquete musical", diz.

Para cantar Elizeth, é preciso ter apetite. A cantora tinha uma voz extremamente afinada, rigor estilístico e canções difíceis de cantar, feitas por grandes compositores da música brasileira. Mônica confessa que a homenageada não fez parte de sua formação - Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Clara Nunes e Clementina de Jesus cumpriram essa função. "Tive que estudar mesmo. Mas adoro fazer isso. Elizeth tinha uma técnica vocal absurda e muito equilibrada", opina.

O projeto abre com Lembre-se, parceria de dois gênios, Moacir Santos e Vinicius de Moraes, gravada por Elizeth em disco dedicado inteiramente ao Poetinha em 1963, cinco anos após Canção do Amor Demais, no qual ela (quase) lançou a bossa nova, já com a lendária batida de João Gilberto no violão.

Mônica dá um sentido a Lembre-se que vai além de qualquer desafio musical. "'Lembre-se sempre de mim', diz a letra. Ainda bem que Elizeth tem uma música para abrirmos um disco em homenagem a ela falando esse texto". A cantora chama atenção para o apagamento. "Na música brasileira, algumas gerações são colocadas para trás. Isso aconteceu com o pessoal do rádio, que foi atropelado pela turma da televisão", comenta, sobre a geração conhecida por fundar a MPB, a partir de 1965.

Não esperem uma coletânea dos sucessos - Mônica não gravou, por exemplo, Eu Bebo Sim ou Canção de Amor. Sei Lá, Mangueira, de Paulinho da Viola, talvez cumpra esse papel. Conseguiu abranger uma gama de compositores importantes na vida de Elizeth, como Cartola, Tom Jobim, Baden Powell, Paulo César Pinheiro e Hermínio Bello de Carvalho.

Mônica conta que as canções escolhidas a partir de uma grande lista inicial foram "levantando a mão" para entrar no show e, posteriormente, no disco. São muitas as razões. Por não ser uma cantora de samba, ela sente que Sei Lá, Mangueira é uma que ajuda a cantar. Seresteiro chamou atenção pela história. Carta de Poeta, que Elizeth nem sempre cantava por considerá-la "difícil", é bela por demais.

As melodias mais complexas, com muitos saltos, Mônica encara, como é possível atestar ao longo de sua carreira, iniciada nos anos 1990. "Realmente, sou chegada a uma melodia. Eu fiz o curso", brinca. "Complicadas mesmo são as grandes extensões [de voz]".

Entre tanta poesia, há uma licença. Três músicas do álbum não são do repertório da veterana. Duas delas são Nossa Senhora do Silêncio (Mauricio Carrilho/Paulo César Pinheiro) e De Bem Com o Amor (Luciana Rabello/Paulo César Pinheiro). Tudo em casa. Pinheiro era amigo de Elizeth. Luciana e Carrilho foram músicos da cantora. A terceira é o samba Deixa pra Lá (Dino e Meira, que também tocaram com Elizeth), do repertório de Isaurinha Garcia, outra cantora do rádio.

Há ainda uma preciosidade: Mônica gravou a única composição conhecida de Elizeth, Se As Estrelas Falassem. Nem mesmo Elizeth o fez. Porém, há um vídeo dela cantando em um programa de TV, observada por Martinho da Vila e Dona Ivone Lara, bastante emocionada. A letra é melancólica e confessional: "Segredos, eu diria às estrelas/ Minha vida, uma história demais infeliz/ Se eu pudesse ir até às estrelas/ Saberia então se elas amam ou não/ Estrela, eu nunca fui feliz".

"Elizeth não a canta com aquele vozeirão dela. Canta pequenininho, como quem está quase pedindo desculpa por mostrar a música dela. Ela não tem a intensidade de Noturno em Tempo de Samba [outra que está no álbum], é contida. Acho-a muito bonita. Quando canto, o vídeo fica passando na minha cabeça."

Mônica confessa que não é da "catarse". Consegue cantar com sentimento, obviamente, mas não vai às últimas consequências. "Uma das coisas mais lindas que vi na vida é Maysa cantando Ne Me Quitte Pas. Ela quase se mata, e você vai junto com ela. Não sou assim. Não me misturo com o que estou cantando, mas experimento sentir aquilo que está sendo dito", diz. "Fico no limite. Quero oferecer a melodia, as palavras e as harmonias ao público", completa Mônica.

Senhora das Canções - Um Tributo a Elizeth

Mônica Salmaso

Biscoito Fino

Em CD (R$ 61,76) e plataformas digitais

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