Bill Gates voltou ao centro do debate sobre o impacto econômico da inteligência artificial ao defender que determinadas ocupações sejam reservadas a trabalhadores humanos, mesmo quando as máquinas já forem tecnicamente capazes de executá-las. A proposta está em um ensaio de cerca de 6 mil palavras publicado nesta quinta-feira (27) no site pessoal do cofundador da Microsoft, acompanhado de uma rodada de entrevistas a veículos como The New York Times, CNN, Axios, Semafor e GeekWire.
A ideia central é a criação de uma espécie de categoria protegida — batizada por ele de "human reserved" — que abrangeria atividades nas quais o contato humano é parte essencial do serviço prestado. Entre os exemplos citados estão o cuidado infantil, a educação, a saúde, os cuidados paliativos e funções cívicas como a atuação em júris populares. Nesses campos, argumenta Gates, a inteligência artificial deveria ocupar um papel de apoio, com pessoas mantidas na posição de decisão. Ao justificar a proposta, ele recorre a uma experiência pessoal: a dos cuidadores que acompanharam seu pai, diagnosticado com Alzheimer, e cujo trabalho, segundo ele, tinha uma dimensão que nenhuma máquina conseguiria substituir.
O texto também retoma uma bandeira que Gates havia levantado pela primeira vez em 2017: a taxação da automação. Ele defende que os sistemas tributários atuais criam um incentivo perverso, ao tornar mais barato substituir trabalhadores por máquinas do que mantê-los empregados. Para corrigir a distorção, sugere tributar robôs e também os tokens consumidos pelos sistemas de inteligência artificial, usando a arrecadação para compensar a perda de receita fiscal e financiar programas de requalificação profissional e de proteção social.
O próprio Gates, no entanto, admite os limites do plano: pelos cálculos apresentados no ensaio, mesmo em sua versão mais ampla a medida protegeria no máximo 40% dos postos de trabalho, deixando a maioria dos trabalhadores exposta à automação. Ele ainda dirige críticas ao silêncio de parte da indústria de IA sobre os riscos já conhecidos da tecnologia — do uso por agentes mal-intencionados à facilitação de ataques cibernéticos e biológicos contra infraestruturas críticas — e cobra a construção de marcos regulatórios nacionais e internacionais antes que os efeitos sobre o mercado de trabalho se tornem irreversíveis.
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