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Diário de Notícias

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Brasileiros ganham dinheiro gravando tarefas domésticas para treinar robôs com inteligência artificial

Uma nova modalidade de trabalho impulsionada pela inteligência artificial começa a ganhar espaço no Brasil. Pessoas estão recebendo pagamentos para gravar atividades simples do cotidiano, como lavar louça, arrumar a cama, limpar banheiros e guardar compras. Os vídeos são utilizados para treinar sistemas de inteligência artificial que poderão permitir que robôs humanoides realizem tarefas semelhantes no futuro. A tendência, que já existe em outros países, ganhou destaque nesta terça-feira (27) com relatos de brasileiros que transformaram a atividade em uma fonte de renda complementar.

O funcionamento é relativamente simples. Os participantes utilizam um smartphone preso a um suporte na cabeça para registrar as atividades sob a perspectiva de quem está executando cada movimento. As imagens são enviadas para plataformas especializadas, que analisam o conteúdo e o disponibilizam para empresas envolvidas no desenvolvimento de robôs. O objetivo é ensinar as máquinas a compreender como os seres humanos manipulam objetos, organizam ambientes e realizam tarefas em situações reais.

Entre as plataformas que atuam nesse mercado estão Flambra, Kgen, Mimix e Hub. Os pagamentos geralmente variam entre R$ 10 e R$ 35 por hora de gravação, dependendo da atividade e das exigências de cada empresa. Algumas tarefas especializadas podem oferecer valores superiores. Os participantes costumam receber por meio do Pix, após a aprovação dos vídeos enviados.

Uma das histórias que chamaram a atenção envolve uma publicitária de Belo Horizonte, em Minas Gerais, que afirma ter recebido mais de R$ 17 mil desde agosto, somando os ganhos com gravações realizadas por ela e pelo marido, além de pagamentos por indicações de novos participantes. Já uma empreendedora de Cuiabá, em Mato Grosso, relatou ter conseguido aproximadamente R$ 800 desde setembro realizando tarefas domésticas enquanto era filmada.

O crescimento desse tipo de atividade está diretamente relacionado à chamada inteligência artificial física, área da tecnologia dedicada ao desenvolvimento de sistemas capazes de compreender e interagir com o mundo real. Diferentemente dos programas que produzem textos e imagens, os robôs precisam aprender movimentos, reconhecer objetos e lidar com situações que variam de um ambiente para outro.

Para isso, as empresas necessitam de grandes quantidades de registros de atividades humanas. As gravações ajudam a identificar, por exemplo, a maneira correta de segurar utensílios, abrir armários, organizar produtos e movimentar objetos de diferentes tamanhos. Essas informações podem ser utilizadas para desenvolver robôs capazes de auxiliar em residências, estabelecimentos comerciais, hospitais e ambientes industriais.

O Brasil passou a despertar o interesse de empresas internacionais desse segmento. A Hub, companhia de inteligência artificial sediada nos Estados Unidos, afirma reunir mais de um milhão de pessoas cadastradas no país para participar da coleta de vídeos. A empresa considera o mercado brasileiro estratégico pela diversidade de ambientes e pela possibilidade de obter registros de atividades cotidianas semelhantes às realizadas em outros países.

Apesar das oportunidades de renda, a nova atividade também levanta questionamentos sobre as condições de trabalho, a proteção de dados e a transparência dos pagamentos. Especialistas alertam que os participantes nem sempre sabem quais empresas recebem suas gravações, por quanto tempo os materiais serão utilizados ou como os valores pagos pelas tarefas são definidos.

Outro ponto de preocupação é a possibilidade de redução dos pagamentos conforme aumenta o número de pessoas interessadas. Como os trabalhadores geralmente recebem apenas pela gravação aprovada, não há garantia de remuneração fixa nem participação nos lucros que poderão ser gerados pelas tecnologias desenvolvidas a partir dos vídeos.

O avanço desse mercado mostra como a inteligência artificial começa a criar atividades profissionais que até pouco tempo pareciam improváveis. Ao mesmo tempo, evidencia os desafios de regulamentar novas formas de trabalho digital e garantir que o desenvolvimento tecnológico também produza benefícios para as pessoas que contribuem com os dados utilizados no treinamento das máquinas.

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