O estudante de História Diego Costa Araújo, de 27 anos, agredido e acusado de apologia ao nazismo e de cometer injúria racial na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), negou que tenha cometido esses crimes e disse, ao Estadão, que considera "impossível" retomar o curso por não se sentir seguro.
"A UFRJ não consegue garantir minha segurança física enquanto pessoa", disse. A reportagem entrou em contato com a universidade e aguarda o retorno. O episódio ocorreu na terça-feira, 25, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ.
Diego diz que vestia uma camiseta e um bottom da banda punk Death in June, conhecida por seu posicionamento ambíguo sobre o nazismo, e afirma ter sofrido uma tentativa de homicídio ao ser espancado por dezenas de pessoas.
A confusão teria começado quando o estudante de Direito Deivid Lima entrou na sala de aula para questionar Diego sobre a roupa e o broche do grupo musical.
Deivid disse que Diego estaria cometendo um crime. No Brasil, a apologia ao nazismo é prevista na Lei 7.716/1989. A divulgação de símbolos nazistas para esse fim pode resultar em reclusão de dois a cinco anos e multa.
Diego teria dado uma cotovelada em Deivid, o chamado de macaco, segurado seu cabelo e dito que iria matá-lo quando a confusão começou.
Em nota, os advogados que representam Deivid afirmam que ele "foi vítima de agressões físicas e violência racial" e lamentam as "tentativas de manipulação e distorção dos fatos".
"Os estudantes falam abertamente em me matar. Vazaram o meu número e tem gente me mandando mensagem. Estou sofrendo um processo de doxxing",acrescenta Diego. Ele afirma que também usava um broche antinazista.
Doxxing é a exposição ou divulgação, sem autorização, de dados (ou outras informações que possam identificá-lo) pessoais de alguém na internet.
Em um documento assinado por mais de 280 profissionais da UFRJ e de outras instituições, eles manifestam solidariedade aos estudantes do IFCS e cobram da universidade a criação de mecanismos de prevenção e defesa contra eventos semelhantes. A nota também afirma que Diego teria atuado como "agente provocador" ao exibir uma camiseta de uma banda com propósito evidente.
"Posicionamo-nos publicamente em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista em um campus da UFRJ e em repúdio aos atos por ele praticados, entre eles agredir verbal e fisicamente um estudante negro com insultos racistas", diz o Forms.
O estudante de História se autodeclara abertamente marxista e diz que contribuiu com a plataforma digital LavraPalavra em uma publicação de 2022. O portal, que também mantém produtos impressos, diz ter como objetivo "criar um aparelho de publicações capaz de dialogar com o amplo espectro da esquerda brasileira e lusófona".
Diego afirma que tentou explicar que a camisa e o broche que vestia faziam referência à oposição ao nazismo e à supremacia branca. "[No vídeo] Estou andando de modo pacífico e tendo uma postura pacífica. Eu não resisto, eu não xingo, eu não agrido de volta."
A banda em discussão, Death in June, provoca controvérsia no mundo da música pelo uso de símbolos associados ao nazismo. Em 2023, o crítico Jim DeRogatis publicou no jornal Chicago Sun-Times que o vocalista Douglas Pearce é assumidamente gay e ex-integrante da banda punk de esquerda Crisis. DeRogatis também mencionou que o Death in June já teve um integrante judeu em sua formação e que o grupo utiliza esses símbolos com o objetivo de provocar indignação.
Vídeo divulgado nas redes sociais
Em um vídeo publicado nas redes sociais, Deivid afirma que, após a agressão, enquanto os dois se dirigiam à secretaria da universidade, Diego teria puxado seu cabelo e dado uma mordida. Em seguida, Deivid afirma que Diego também teria proferido ofensas contra outros colegas com o "intuito de que eles perdessem a cabeça e fossem para cima dele".
"Ele olhou para mim com desdém e disse que ele poderia fazer o quê ele queria, que ele tinha liberdade de expressão para usar tudo aquilo que ele tivesse vontade", disse Deivid. Segundo ele, o jovem foi orientado a seguir até a secretaria e chamar uma viatura para esclarecer os fatos, quando ocorreu a agressão.
O que diz a UFRJ
A UFRJ e a direção do IFCS abriram uma comissão de sindicância para apurar o caso. Em nota oficial, a reitoria da universidade repudiou veementemente qualquer tipo de apologia ao nazismo, ao fascismo, ao racismo, ao antissemitismo e a qualquer forma de intolerância ou discriminação.
A instituição ressaltou que não admite agressões físicas ou violência como resposta a provocações ou divergências ideológicas, afirmando que o ambiente acadêmico deve priorizar a convivência democrática. Reuniões e ações com a comunidade estudantil foram intensificadas para evitar a escalada de novos conflitos no campus.
Polícia investiga imagens
A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga o episódio de violência envolvendo estudantes da UFRJ.
A Polícia Civil analisa as imagens gravadas por celulares de testemunhas e realiza diligências para ouvir os envolvidos e esclarecer tanto a acusação de apologia ao nazismo quanto os atos de agressão física.
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