Com a votação antecipada em curso nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato chegam à reta final sob um clima de ansiedade em eleitores que já foram às urnas. Muitos descrevem a sensação de que "a América que conheciam está sumindo" e citam desde a percepção de "ilegalidade" entre políticos até a influência de bilionários - e, sobretudo, o impacto do custo de vida, com a gasolina no centro das queixas.
Amanhã, os americanos vão eleger um novo Congresso: todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e 35 das 100 cadeiras do Senado estarão em disputa. O Partido Republicano hoje controla as duas Casas, mas entram na eleição pressionados pela baixa popularidade do presidente dos EUA, Donald Trump.
O Commerzbank observa que a aprovação do mandatário está em 38%, com 60% de desaprovação, resultando em saldo líquido de -22%. Na avaliação do banco, a inflação é um fator decisivo. Segundo o Commerzbank, Trump teria falhado em cumprir a promessa de baixar preços "no primeiro dia", e suas políticas - tarifas e a guerra com o Irã, que elevou os preços de energia - ajudaram a reacender pressões inflacionárias. A análise também menciona que aluguéis, alimentos e combustíveis ganharam protagonismo na campanha, enquanto o Partido Democrata aposta na bandeira do custo de vida.
As pesquisas indicam risco elevado para os republicanos, especialmente na Câmara. Historicamente, o partido do presidente costuma perder cadeiras na Câmara em eleições de meio de mandato - cerca de 20, em média, desde 1950. Agora, com uma maioria republicana estreita de quatro assentos, levantamentos sugerem que os democratas podem ganhar ao menos 20 cadeiras e assumir o controle da casa.
No Senado, a disputa também apertou para os republicanos nas últimas semanas, inclusive com sinais de virada no Texas, tradicional reduto conservador. O quadro aparece nas sondagens mais recentes: pesquisa do New York Times em parceria com o Siena Research Institute (SRI), divulgada em 1º de novembro, mostra democratas à frente em cinco dos sete Estados-pêndulo analisados para o Senado.
Na véspera da eleição, Trump minimizou os números e disse que "nunca conheceu alguém" entrevistado por institutos de pesquisa. Ele afirmou que, em um comício, apenas duas pessoas levantaram as mãos ao serem perguntadas se haviam sido consultadas. Também declarou que vetará "tudo" caso os democratas vençam e, ao ser questionado sobre segurança eleitoral, respondeu que não acredita que as eleições serão seguras.
Ontem, a Justiça americana indeferiu uma ação movida pelo governo Trump que buscava impedir o Alasca de certificar uma possível derrota do senador republicano Dan Sullivan nas eleições, alegando risco de os eleitores terem se equivocado ao votar, já que há um concorrente homônimo.
O ING observa que sites de apostas atribuem aos democratas 70% a 72% de chance de conquistar Câmara e Senado. O banco pondera que parte das leituras sobre efeitos imediatos é especulativa, mas nota que uma vitória democrata poderia pressionar o dólar, uma vez que provavelmente levaria a um impasse em relação ao teto da dívida, a uma paralisação prolongada do governo no próximo ano e poderia incentivar Trump a adotar uma agenda de política externa ainda mais intervencionista.
O Commerzbank também alerta para o risco de shutdown, já que o financiamento do governo vai apenas até 11 de dezembro. O banco pontua que, se os democratas levarem além da Câmara o Senado, a capacidade de Trump de influenciar o Fed seria limitada, já que é necessária a aprovação da Casa para preencher vagas abertas no conselho da autoridade monetária. O banco ainda menciona, como cenário de baixa probabilidade, mas "maior do que zero", a possibilidade de contestação dos resultados, com ondas de ações judiciais e protestos, o que poderia afetar a confiança institucional. Enquanto os votos antecipados continuam a ser depositados, as projeções apontam para um Congresso mais dividido - e para uma fase em que, entre inflação, impasses orçamentários e tensões externas, o pós-eleição pode importar tanto quanto o resultado.
*Com informações da Associated Press (AP).
0 Comentário(s)