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Milei aposta nas Malvinas para unificar argentinos em meio a estagnação econômica

Basta uma caminhada por Buenos Aires para encontrar um muro com uma pintura das ilhas Malvinas e a frase "as Malvinas são argentinas". Poucos temas são tão unânimes no país quanto este. A guerra em 1982 com o Reino Unido é uma ferida aberta que une desde os libertários ao kirchneristas mais de esquerda. Javier Milei sabia muito bem disso quando resgatou, na noite de quinta-feira, 3, em cadeia nacional, o sentimento de soberania dos argentinos.

Durante todo o dia, a Casa Rosada criou um clima de expectativa sobre o pronunciamento que o presidente faria em horário nobre.

Nele, Milei prometeu sanções a quem explorar petróleo e outros recursos na região e quer uma base naval em Terra do Fogo.

Nenhum desses anúncios são novos. A Argentina já impõe sanções às empresas que exploram petróleo na região desde 2011 e construir uma base no extremo sul do país é um sonho antigo. A diferença desta vez, que joga a favor de Milei, é o timing.

A questão Malvinas voltou à tona durante a Copa do Mundo, quando jogadores da seleção abriram uma faixa escrito "as Malvinas são argentinas" após o jogo contra a Inglaterra.

Esta semana, Donald Trump deu indícios de rever a tradicional posição da diplomacia americana de reconhecer a soberania britânica sobre as ilhas, em um aparente movimento para irritar o Reino Unido.

Milei há tempos busca uma causa para se ancorar enquanto tenta ofuscar os problemas políticos e econômicos internos. Escândalos de corrupção derrubaram membros essenciais de seu governo e os argentinos estão lidando com uma economia estagnada e altos índices de endividamento.

Primeiro, o libertário tentou criar a narrativa do "inimigo externo" ao antagonizar com Lula, abrindo uma crise diplomática com o Brasil. O episódio, porém, logo arrefeceu e pouco chegou ao argentino comum.

Mas com as Malvinas é diferente. "A causa das Malvinas é uma das poucas questões que realmente unem o povo argentino", afirma Facundo Galván, professor da Universidade de Buenos Aires.

O cientista político aponta que Milei propõe neste momento alterar uma lei que foi criada durante o governo de Cristina Kirchner e foi aprovada na época por unanimidade. O libertário quer modificar a legislação para endurecer as sanções contra empresas que realizam atividades nas Ilhas Malvinas sem a permissão do Estado argentino.

"A legislação relacionada à causa das Malvinas é, via de regra, aprovada por unanimidade, e tudo indica que este caso não será exceção", diz o professor.

"Ficou amplamente demonstrado que a questão das Malvinas é uma causa nacional, algo que desperta emoções em todos", concorda a professora da Universidade Católica Argentina Lourdes Puente.

As Malvinas são presença constante na política argentina. Entre as cercas ao fundo da Casa Rosada, um painel pintado em tapumes reivindica a soberania das ilhas.

No sul do país, a cidade de Río Gallegos, berço de Néstor Kirchner, é um dos pontos mais próximos da Argentina continental com o arquipélago. Ali, um museu de guerra se chama Malvinas Argentinas, monumentos relembram os soldados caídos na guerra de 1982 e um caça aponta diretamente para a ilha.

Milei, contudo, nunca abraçou a causa da forma como faz agora. Durante as eleições, ele disse que não repetiria o lema de reivindicar a soberania. Primeiro porque associava o tema à esquerda, segundo porque ele próprio é um admirador de Margaret Thatcher, a premiê que mandou enviar as forças britânicas para a ilha e uma das maiores vilãs da psiquê argentina.

Agora ele abraça a causa, inclusive trocando no discurso em cadeia nacional o seu tradicional "viva a liberdade" por "viva a pátria".

"Era importante para o governo promover a coesão, tanto internamente quanto com a sociedade argentina, em um contexto no qual, por exemplo, a inadimplência tem aumentado nos últimos meses", diz Mauro Enbe, internacionalista e professor na Universidade Torcuato Di Tella.

Os argentinos atingiram em junho o maior índice de inadimplência desde 2010. Embora os dados macroeconômicos do país tenham melhorado, como recuperação do PIB e contenção da inflação, os argentinos reclamam de não conseguirem chegar ao fim do mês. A inflação foi controlada em patamares altos e os salários não acompanham os preços.

O fator Trump

O discurso de Milei neste momento é nada diferente do que sempre defendeu o kirchnerismo. Porém, agora ele conta com um apoiador retórico de peso na Casa Branca.

Na segunda-feira, 31, Trump foi questionado se revisaria a posição americana sobre as ilhas, as quais os EUA chamam de Ilhas Falklands, como batizou o Reino Unido. O americano respondeu: "Eu sempre reviso cada posição. Essa é apenas uma de muitas".

No início do ano, o Pentágono sinalizou que estava revendo uma série de mudanças a fim de pressionar seus aliados da Otan, e uma delas era a posição americana sobre as ilhas.

Em seu discurso, o presidente argentino atribuiu à fala de Trump a um clima de confiança no atual governo. Mas analistas dizem que os interesses de Trump estão mais voltados a irritar o Reino Unido que agradar aos argentinos.

"Na realidade, tratou-se apenas de declarações de Trump, oficialmente, os EUA não estão mudando absolutamente nada", observa Mauro Enbe. "De fato, o país reconhece a soberania britânica, uma vez que a posição oficial é a de que a questão da soberania deve ser resolvida por meio de negociações e mecanismos afins".

Trump não está feliz com a forma como Londres tem lidado com a guerra no Irã. O país europeu negou acesso aos americanos a suas bases no Oriente Médio. O republicano também está insatisfeito com os gastos militares dos britânicos.

"Claramente, Trump não é um defensor da causa das Malvinas, nem nutre qualquer apreço pelos veteranos daquele conflito", concorda Facundo Galván. "Trump está jogando um jogo geopolítico e claramente percebeu que a questão das Malvinas é uma ferramenta de pressão útil em relação à política externa do Reino Unido, especificamente quanto às suas decisões de cortar gastos militares e de não apoiar os esforços de guerra dos EUA."

Outro timing: Vaca Muerta

Mauro Enbe ressalta que agora, pela primeira vez desde a guerra das Malvinas, a Argentina tem um elemento de pressão real sobre as empresas que operam na ilha.

Não é nenhuma novidade que empresas britânicas e israelenses querem explorar o petróleo da região. Em seu discurso, o argentino falou especificamente do projeto Sea Lion, um campo petrolífero offshore localizado a 220 Km das ilhas.

"Constatamos que o projeto Sea Lion, operado pela Navitas Petroleum e pela Rockhopper Exploration, tem previsão de iniciar a produção de petróleo em alto-mar nos próximos meses. Se não agirmos com decisão e rapidez hoje, em poucos meses eles terão os meios para se apoderar das reservas de petróleo que se encontram sob o nosso mar", afirmou Milei.

Nada disso é novo. A Navitas Petroleum já é sancionada desde 2022 por Buenos Aires e a Rockhopper Exploration desde 2013. Mas a Argentina até então nunca teve muito peso para colocar nessas companhias, até a descoberta de Vaca Muerta, na Patagônia, uma das maiores reservas de gás e óleo de xisto do mundo.

"Hoje, a Argentina detém um poder de influência significativo ao sinalizar, na prática que qualquer empresa que se envolver nas Malvinas não poderá operar em Vaca Muerta. Isso faz com que grandes empresas pensem duas vezes", afirma Enbe.

"O governo escolheu este momento para reiterar as sanções, fazendo-o justamente devido ao contexto em torno de Vaca Muerta. A influência da Argentina é muito maior agora e conta, sem dúvida, com o apoio do governo dos EUA", completa.

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