Novembro é o mês em que diversas marcas lançam campanhas pontuais sobre diversidade e inclusão de pessoas negras. Poucas semanas depois, porém, essas pautas acabam engolidas pelas promoções de Black Friday e pela comunicação das festas de fim de ano. Mas, em 2026, uma iniciativa propõe uma abordagem diferente: um movimento de longo prazo, com metas e ações voltadas a enfrentar desigualdades estruturais no mercado de influência digital.
REPARA é um movimento pela equidade racial na economia dos criadores de conteúdo, articulado pelo Grupo L'Oréal no Brasil, pela Spark e pelo MOVER (Movimento pela Equidade Racial). A proposta é ampliar o acesso de criadores de conteúdo negros a oportunidades comerciais, melhores condições de remuneração e parcerias duradouras.
O ponto de partida foi uma pesquisa realizada em parceria com o Instituto MC15, que ouviu 16,2 mil participantes para investigar as barreiras enfrentadas por criadores de conteúdo negros na construção de suas carreiras.
Os resultados apontam desigualdades em diferentes etapas dessa jornada, que vão além das diferenças de cachê. Entre elas estão a menor presença nas faixas de maior audiência, o acesso reduzido a propostas comerciais e a dificuldade de estabelecer relações duradouras com as marcas.
"Mesmo entre creators com mais de 50 mil seguidores, as diferenças permanecem relevantes", afirmou Loana Coelho, diretora de Marketing e Digital do Grupo L'Oréal no Brasil. Nessa faixa, o cachê médio dos creators negros ainda é 25% menor que o dos brancos.
Os números da desigualdade de oportunidades
Na amostra geral, criadores negros recebem, em média, 29% menos propostas comerciais que criadores brancos. A participação também diminui conforme aumenta a audiência. Enquanto representam 59% dos criadores das faixas nano e micro, essa proporção cai para 44% entre os médios e 38% entre os macro e top.
As barreiras aparecem tanto no acesso inicial às marcas quanto na continuidade das relações comerciais. Entre nano e micro criadores negros, 43% apontam dificuldades para fazer com que as marcas conheçam seu trabalho. Já entre os médios e macro, 60% encontram dificuldades para conquistar contratos de longo prazo.
"Ter uma audiência maior não elimina os obstáculos para construir relações duradouras com as marcas", afirma Loana. Para a executiva, a desigualdade não se resume à dificuldade de conseguir uma primeira contratação. "O problema, portanto, não é apenas conseguir uma oportunidade, mas quais oportunidades chegam, em quais condições e com que possibilidade de continuidade."
Outro dado chama a atenção para a forma como esses profissionais são percebidos pelo mercado: um em cada cinco criadores de conteúdo negros sente que é contratado para cumprir metas de diversidade.
"Esse dado chama atenção para o risco de a identidade racial se sobrepor ao reconhecimento do repertório profissional. Diversidade e inclusão é um tema abordado por apenas 8% da amostra total da pesquisa; o universo de conteúdos produzidos é muito mais amplo", afirma a executiva. O percentual se refere aos criadores de conteúdo que abordam diversidade e inclusão entre os temas de seus conteúdos.
Banco de talentos aproxima das marcas os criadores negros
Diante desse cenário, o REPARA propõe uma meta coletiva para o mercado: que criadores de conteúdo negros representem pelo menos 50% dos profissionais em todas as faixas de audiência, dos nano aos grandes, até 2030.
Uma das iniciativas previstas para avançar nesse objetivo é a criação de um banco colaborativo com mais de mil criadores de conteúdo negros de médio porte. Desenvolvida em parceria com a Human Data, a ferramenta pretende facilitar o acesso das marcas a esses profissionais e ampliar suas possibilidades de participação em campanhas.
O banco permitirá buscar talentos por afinidade temática com as marcas, identificar conteúdos com maior engajamento e analisar o potencial de cada perfil. Os profissionais passarão por uma curadoria antes de serem disponibilizados para consulta.
"O grande desafio de uma iniciativa como essa é assegurar que ela permaneça viva, atualizada e efetivamente utilizada pelo mercado, em vez de se tornar um catálogo estático", afirma Loana.
A executiva ressalta que a presença no banco não representa garantia de contratação. A proposta é ampliar a visibilidade desses profissionais e facilitar conexões comerciais, mas a efetivação das oportunidades depende das decisões de quem contrata.
Iniciativas de capacitação também estão no radar
O plano de ação do movimento também prevê iniciativas de capacitação e ampliação do acesso a oportunidades, duas frentes consideradas fundamentais para o desenvolvimento profissional desses criadores.
Entre os nano e os micro, 48% apontam a capacitação como uma necessidade, incluindo formação, equipamentos e mentoria. Já entre os profissionais de médio porte, 49% destacam questões relacionadas ao acesso, como networking, investimento e aproximação com agências.
A diferença ajuda a explicar por que o REPARA propõe atuar em frentes complementares. Para nano e micro criadores, a capacitação aparece como uma necessidade importante. Já entre os profissionais de médio porte, ganham relevância a conexão com marcas e agentes do mercado e a ampliação das oportunidades comerciais.
Nesse contexto, o movimento também se apoia no Beleza + Diversa, programa de capacitação e aceleração do Grupo L'Oréal voltado a criadores de conteúdo negros. Em 2026, o programa chega à terceira edição, com 10 mil inscritos.
"Além de disponibilizar uma jornada de desenvolvimento, o programa prevê a seleção de, no mínimo, dez talentos para contratos de um ano com o Grupo L'Oréal no Brasil e suas marcas, conectando a formação a oportunidades concretas para esses profissionais."
Mobilização depende de toda a cadeia de comunicação
Para que as metas do REPARA avancem, o movimento defende que a responsabilidade pela mudança seja compartilhada entre os diferentes agentes da cadeia de comunicação.
Na avaliação de Loana, os anunciantes precisam incorporar a diversidade desde a elaboração dos briefings, com critérios de inclusão que não fiquem restritos a datas comemorativas. Já as agências devem rever seus processos de busca e curadoria, evitando recorrer sempre aos mesmos profissionais e ampliando o repertório de criadores considerados para as campanhas.
Empresas de tecnologia e dados também têm um papel na identificação de talentos, enquanto plataformas e planos de mídia podem contribuir para ampliar a distribuição e o alcance dos conteúdos produzidos por esses profissionais.
Além da meta de representatividade, Loana aponta outras dimensões que devem ser acompanhadas para avaliar a redução das desigualdades, como o volume de propostas comerciais recebidas, a equidade na remuneração, a continuidade dos contratos e a presença de creators negros em campanhas de grande alcance.
A mobilização também deve continuar em espaços de discussão do mercado. "Seguiremos trabalhando a agenda em fóruns de mercado como os Comitês da Associação Brasileira de Anunciantes, do MOVER (Movimento pela Equidade Racial), entre outros momentos relevantes ao longo do ano", afirma.
A proposta é de que o avanço não seja medido apenas pela quantidade de profissionais presentes no mercado, mas também pelas condições oferecidas para que consigam desenvolver suas carreiras de maneira sustentável.
Como resume Loana, o REPARA é um chamado coletivo para que cada elo dessa corrente reconheça sua capacidade de ação e transforme essa disposição em prática diária. Até 2030, o desafio será fazer com que essa mobilização se traduza em uma economia dos criadores de conteúdo mais justa, com oportunidades e condições de trabalho menos desiguais.
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